quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Crônica - Infância

(atualização de conto já publicado na série Maracujá Doce)



Walter Ogama 

Havia um pé de limão rosa no fundo do quintal, à direita de uma pequena área gramada e pouco antes da cerca improvisada com madeiras que restaram da construção da casa.
Imperfeitas, as tábuas formavam uma fila de pouca estética. Alguns vãos entre elas davam apenas para as mãos. Outras mantinham espaços suficientes para enfiar o braço e alcançar a horta do quintal vizinho, onde as cebolinhas verdes assanhavam perto do horário das refeições.
                Um abacateiro enorme dava sombra bem onde uma viga fincada no chão de terra mole fazia o ponto de partida para os seis arames do varal. Às vezes, após as chuvas, uma estaca feita de um galho de árvore servia de escora.
Envergada pelo peso, ela suportava a viga inclinada para o lado onde os arames, abarrotados de roupas molhadas, sofriam pressão. Calças de brim, camisas de algodão, cobertas, lençóis, meias e peças íntimas masculinas e femininas, de cores sóbrias ou vivas, pareciam bandeirolas disformes.
A cana-de-açúcar, de gomos avermelhados e folhas verdes bem fortes, desenhava um redondo pouco abaixo do pé de manga rosa. A touceira ocupava perto de um metro quadrado do terreno e perto dali um pedaço de tronco de árvore, serrado ao meio, era usado como batedor de roupa.
Com um metro e meio de comprimento e cinquenta centímetros de largura, tinha uma ponta apoiada no chão e a outra, sustentada por duas estacas, a uma altura de cerca de oitenta centímetros do chão. No pé, tijolos e telhas amassados faziam um piso, para evitar que as sandálias de tiras pisassem no barro.
Mais à esquerda, um galho grosso do pé de manga descia uma corda. Na ponta, a tábua extraída de um caixote era o assento. Por um buraco grotescamente furado a corda atravessava a madeira. O nó duplo era uma tentativa de manter a peça, responsável pelo conforto de quem se divertia, balançando.
O jardim misturava espécies e perfumes. Tomava parte da frente do quintal e em alguns pontos disfarçava a irregularidade da cerca. Plantas mais altas e de folhagem mais densa tinham muitas finalidades.
À noite, ou sustentavam personagens durante o esconde-esconde, ou ocultavam pregadores de peças que assustavam as meninas que passavam pelo portão após a missa na capela da rua de cima.
O cachorro preto e branco ficava solto. Por mais que pudesse ganhar a rua e as casas da vizinhança através dos vãos entre as tábuas da cerca, o animal limitava-se à área protegida. Por algumas vezes Bilú correu muito para escapar dos laços dos homens da "carrocinha".
Entre os meninos, a lenda era de que cachorro pego virava sabão. Havia muita choradeira entre os pequenos quando um bicho de estimação era levado pela carrocinha.
Nem as galinhas caipiras, ciscando à vontade perto do valo aberto pela corredeira da água do batedor de roupa, incomodavam o cão. Essas aves teriam no final do ano um destino traiçoeiro: a panela ou o forno. Por isso, até a engorda, tinham privilégio no canto do quintal onde eram jogados os restos de comida para alimentar a criação.
No caminho que levava ao poço, onde a água era puxada várias vezes por dia num balde, o maracujá doce pouco se importava com as outras plantas. Vigoroso, subia por um balaústre, invadia o tronco do abacateiro, estendia suas ramas até a viga que suportava os varais e aproveitava um dos arames para atravessar o terreno até os fundos.
Seus frutos eram saborosos. Os adultos usavam colheres de sobremesa para prová-los, mas os meninos preferiam as mãos para rachar a casca dura, beber o caldo pelas frescas e depois enfiar os dedos para apanhar as sementes cobertas pelas polpas adocicadas.
Foi ali, naquele pequeno terreno onde a casa de madeira velha e sem pintura escondia móveis precários e crianças desdentadas, onde nasceu o menino. Cabelos espevitados, olhos esbugalhados, bochechas da cara sujas e avermelhadas, nariz escorrendo, e pés no chão, ele corria o mundo usando como limite os quatro cantos do quintal de um bairro de Londrina, no Norte do Paraná.
A vida de sonhos e fantasias tinha um tempo certo: acordar, tomar café torrado e moído na hora com leite in natura, correr, andar de costas, assobiar, subir em árvores, construir castelos, destruir a base do inimigo, pilotar uma moto feita com cabo de vassoura, enfiar o pé na lama, limpar a perna suja de poeira, correr de novo, andar de costas outra vez, descer da árvore, arrebentar o arame do varal, esconder, aparecer, enxugar o suor do rosto com o lençol posto para secar, levar bronca, xingar, fazer desaforos, retrucar com birras, tomar banho, jantar, zombar com os irmãos, dormir e acordar.

Tudo era fácil, apesar da agenda tão lotada.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Crônica - A Velha Rota

Rua Juruá, Vila Nova, Londrina: o ponto de saída
Rua Araguaia, já na era do asfalto
Antes mercearia, o comércio ficava no meio do percurso
Walter Ogama

                Tantos retornos couberam nesse rumo. Sempre de dia, mas na rotação relâmpago do mundo, inexplicavelmente trazendo a quietude opaca da noite de repente. Da luz para o escuro, de um instante a outro.
Sonho. É para o Norte, onde o sol passa ao meio-dia, que se vai. Outra vez, num carro que não sai do lugar, nas passadas encolhidas do medo de ir, no pedal emperrado da bicicleta, ou na velha moto descendo enguiçada e sem ronco a rua que leva à linha de trem.
Sim, é sonho. Recorrente, teimoso, cansativo, quase pesadelo. Para que lado o inconsciente quer me levar? Sei, por enquanto, que é a um lugar onde nunca ousei voltar. Talvez por isso o breu da noite, quando a luminosidade matutina ou vespertina animava.
Nunca o sono desequilibrado me fez andar o caminho de ida, aquele, da infância inocente. A mãe puxando pela mão e as irmãs atrás, de vestidos simples e calçados velhos, porém conservados, enquanto o pai, mais adiante, arrumava a camisa para dentro das calças.
Subíamos, em cinco, a pequena distância da Rua Juruá, na Vila Nova, em Londrina, saindo do número cento e oitenta e um. A primeira esquina a transpor era a da Turiaçu. Ela chegava rápido, menos de meio quarteirão.
A via sem asfalto, com as duas marcas das rodas levando para frente em paralelas, daquele ponto mostrava a Araguaia, calçada com paralelepípedos, por ser a mais importante do lugar.
A referência para sair dela, poucos passos adiante, era a mercearia, na esquina da Cabo Verde, conhecida como “dois irmãos”. Não era o nome do estabelecimento, mas o apelido familiar mais aceito pelos fregueses.
A subida seguinte era cansativa. Três ou quatro quarteirões acima para chegar a linha do trem. Transpô-la era a brincadeira das crianças e a ousadia dos adultos, principalmente nos dias de chuva.
Antes a faixa de mata rasteira, com alguns pés de mamona carregados de munição para os estilingues, além do capim alto sujando as pernas. Depois de vencido os trilhos o elevado barranco de terra, com degraus feitos de enxada, para facilitar quem ia ou vinha.
Na poeira o desacerto era nos sapatos, cheios de pó. Na lama o problema era o barro, quando não vinha o pior: uma queda na subida ou na descida bem ali na escada do barranco e a roupa manchada pela terra vermelha.
Hoje, num único ponto antes de onde se ergue o prédio do consórcio intermunicipal de saúde - antes Samdu e depois pronto-socorro do então Inamps -, onde mamãe me levou no colo certa vez para costurar corte profundo na coxa com lata velha, construíram uma escada de cimento que leva da avenida que tomou o lugar da linha até uma rua sem saída e sem nome.
Mas naquele tempo, após a travessia dos trilhos e do barranco, andava-se vinte passos miúdos até o asfalto, lá em cima. A pavimentação já cobria a Travessa Goiânia, com apenas um quarteirão longo, via que terminava, para quem ia ao centro, na subida curta da Rua Amapá, até a esquina com a Belo Horizonte.
Ali já se via os prédios. Para as crianças aquilo já era a cidade, apesar de ainda faltar um trecho curto até chegar ao ponto onde uma pracinha, ladeada pela própria Belo Horizonte na frente, mostrava no outro lado os paralelepípedos da Rua Quintino Bocaiúva e se fechava com a Rua Mossoró fazendo um triângulo.
Pertinho ficava a quitanda de vovó e do vovô, bem na Belo Horizonte, entre a Fernando de Noronha e a Benjamin Constant. Com uma porta, já de fora mostrava a quem passava a maçã argentina, o abacaxi, a banana, as uvas, as verduras e as folhas. Havia uma espécie de galeria que permitia ao pedestre atravessar para a Quintino Bocaiúva, de onde se ia para a antiga Avenida Paraná, após atravessar a Benjamin Constant e a Rua Sergipe.
Estávamos, então, no centro de Londrina. Todos os anos, nos desfiles de Sete de Setembro e de Carnaval. Já nos finados seguíamos mais adiante, a pé, mamãe, papai, eu e minhas três irmãs, Mary, Daisy e Denise, até o Cemitério São Pedro, onde num túmulo coletivo jazia nossa irmãzinha mais nova e num túmulo com capela os parentes já falecidos descansavam.
Na volta, ganhávamos pipoca. Ou, nas idas ao centro durante os dias da semana para as compras de fim de ano, éramos agraciados pelos pais com pasteis de carne também no caminho de volta.
Mas é a partir da Belo Horizonte que o meu sonho, insistente, termina quando chego na mata após a travessia da linha férrea.  E evita que eu volte para a Rua Juruá, onde a velha casa de madeira me abrigou até o fim da adolescência.
Seria por causa das janelas e portas de taramelas que abriam ao bater do vento? Ou as frestas enormes entre as tábuas, no assoalho?
Quem sabe a inocência que me permitiu, na pobreza, uma vida de brincadeiras no barro, na poeira e nos quintais com manga, limão, cana-de-açúcar, abacate e maracujá-doce estejam pesando no meu ócio.

Porque agora, anos passados num mundo competitivo já ao cruzar da porta para sair de casa, eu tenho certo medo de ir ou voltar de qualquer lugar para outro.


Leste-Oeste antes linha do trem
Escada sem destino
A pracinha no triângulo da Belo Horizonte, Quintino
Bocaiúva e Mossoró


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

REPORTAGEM - Ele faz a cabeça dos outros

Francisco  Carlos Ramos, o Carlinhos, chegou da roça, virou engraxate e decidiu, no supetão, seguir o ofício de barbeiro

Francisco Carlos Ramos, o Carlinhos, desde
1978 na profissão e há 27 anos no salão
do Centro Comercial, na Rua Piauí
O estabelecimento já acolheu
profissionais tradicionais e serviu também
para o início de outros;
Rodrigo está no ofício há três anos e meio

Walter Ogama

                Como um traçado desenhado a caneta, sem rascunho, tamanha era a certeza. Assim o adolescente Francisco Carlos Ramos emoldurou seu projeto de vida.
Ele havia trabalhado na roça dos nove aos 15 anos para ajudar os pais, que moravam em propriedade rural lá pelas bandas adiante de onde hoje existe o Conjunto Cafezal, na Zona Sul de Londrina.
Só depois mudou para a cidade, onde se tornou engraxate. Sorte que Francisco tinha um lugar fixo para trabalhar. Ele fazia os pares de sapatos brilharem lá no Salão Elite, instalado na Avenida São Paulo.
Com sete profissionais de barba, cabelo e bigode, o Salão Elite repartia com o Salão Presidente, também instalado na área central da cidade, a preferência dos homens londrinenses.
Naquele tempo o público masculino ia à barbearia só para cortar os cabelos e aparar a barba e o bigode, quando tinham. Ninguém imaginava um marmanjo de voz grossa fazendo as unhas das mãos ou dos pés num salão de clientela mista igual aos de agora.
Por isso, quando o marido saia de casa para acertar a aparência, avisava para a mulher que ia à barbearia. Elas, antigamente, iam aos sábados nos salões frequentados só por mulheres para ajeitar as madeixas, passar esmalte nas unhas, afinar as sobrancelhas e caprichar nos produtos para rejuvenescer a pele do rosto.
Enquanto isso, lá no Salão Elite, Carlinhos, entre o pano e a escova passados num sapato de couro, observava e admirava os barbeiros fazendo a cabeça dos homens .
Eles normalmente chegavam com os “paralamas” das orelhas cobertos de cabelos, os pelos do bigode roçando os lábios e invadindo a boca, além da barba, de tão espessa e longa, mais “enfeiando” do que criando um estilo na cara do sujeito.
Meia hora depois ou pouco mais, saiam de cabeça feita e cara limpa graças ao trabalho dos profissionais da tesoura, do pente e da navalha.
Então Carlinhos decidiu ser um deles. De engraxate, trabalho que executou dos 15 aos 18 anos, Carlinhos se tornaria barbeiro.
O ofício ele aprendeu no próprio Salão Elite, por conta, olhando os profissionais trabalharem e recebendo dicas. Por isso se disse lá atrás que “por sorte” o adolescente havia acertado no lugar de engraxar sapatos. O Elite mostrou para Carlinhos o futuro e a possibilidade de formação profissional.
Após a aprendizagem Carlinhos frequentou curso de aperfeiçoamento. Com mais experiência foi trabalhar no salão da Rua Piauí, na galeria do Edifício Centro Comercial, onde está há 27 anos.
Ali ele já trabalhou com os profissionais Carioca, Luiz, Baiano e o Chiquinho, que já faleceu, entre outros. Atualmente reparte o salão com Rodrigo, que está na profissão há três anos e meio.
Carlinhos nasceu no dia 24 de outubro de 1957, em Londrina. Está casado com Jandira há 34 anos. Tem dois filhos, Francarli, de 31 anos, e Renan, de 26. Francarli seguiu a profissão do pai e chegou a trabalhar certo período no salão da Rua Piauí. Atualmente está em Portugal, onde exerce a atividade.
Carlinhos é de opinião que salão de barba, cabelo e bigode tem que ser um lugar limpo e acolhedor, mas sem exageros na decoração e no jeito de tratar os fregueses. Na verdade, a chamada barbearia só tem freguês homem, diferente dos atuais conceitos de salão que misturam homens e mulheres e ampliam a oferta de serviços oferecidos.

Pois no salão da Piauí quem entra para acertar as aparências ainda prefere o jeito antigo de deixar os cabelos na medida e a cara limpa.   

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Crônica - A nossa primeira televisão

Eu bem me lembro! Passava a série O Fugitivo e a gente pegava os cacos das cenas por entre as balaústres de madeira da cerca da casa de Ivone, colega do Grupo Escolar Nilo Peçanha.
A família dela era uma das poucas a ter carro naqueles imediações da Vila Nova, em Londrina. A casa ficava na Rua Javari, em frente ao campo do União, entre as ruas Solimões e Turiaçu.
Mais adiante a Rua Araguaia, calçada com paralelepípedos, abrigava além do Nilo Peçanha o Albergue Noturno, mais de uma oficina de torno e solda, bazares diversos, padarias, bares e lá embaixo, perto da Rua Guaporé, o clube japonês, a sede da Escola de Samba Unidos Independente e quase colado, um clube que animava as noitadas dos sábados e nos carnavais não deixava folião ficar parado.
Paralela à Araguaia já existia a Rua Tietê, que naquele tempo era uma espécie de estradão de terra conhecido como bananal. Era, na verdade, um gancho para os pais amedrontarem seus filhos. Os adultos diziam que o bananal era perigosos, pois o homem do saco costumava passar por ali para pegar crianças.
O Campo do União era cercado pelas ruas Javari, onde morava a colega Ivone, a Juruá, onde eu morava numa casa de madeira sem pintura e envelhecida, a de número 181, além da Solimões e da Turiaçu. Rodadas dos campeonatos amadores eram realizadas nas tardes dos sábados e nas manhãs e nas tardes dos domingos.
À noite somente as lâmpadas avermelhadas dos postes de madeira davam relativa claridade. Ainda assim os meninos brincavam, senão de bola por causa do escuro, com atividades mais propícias para o momento: pega-pega, mãe da rua, pique, esconde-esconde e, lá no outro lado, numa área onde a grama ainda resistia, as meninas aqueciam-se do frio ou refrescava-se do anoitecer modorrento por causa do calor com as brincadeiras de roda.
“Pau rolou, pau caiu, lá na mata ninguém viu...” Às vezes passava das onze e ainda se ouvia uma ou outra cantiga. “Passa passa cavaleiro, pela porta do carneiro, a última a de ficar...”
Era tudo terra naquele cantão da Vila Nova. Mamona para usar no estilingue dava no quintal. Mamãe ouvia um programa de rádio chamado “Aconteceu”. Eu tinha um cachorro chamado Lulu. Mestição feio, sujo e amarrado com corda, porque as galinhas ficavam soltas para se alimentarem de resto de comida e minhocas.
Um enorme pé de abacate ficava colado à cerca que separava o nosso quintal com o de dona Maria Baiana. A mesma cerca servia para o maracujá doce, que na época da florada trazia abelhas. Lá no fundo um pé de limão rosa dava para a família e os vizinhos. Os três pés de manga eram rosa, aquelas miúdas e esfiapadas. Uma touceira de cana atendia a todos quase o ano inteiro.
Papai tinha uma bicicleta e entregava doce nos bares. Mamãe não tinha fogão a gás. O dela era de cimento, construído na cozinha. Ela também sentia a falta de uma geladeira. Nas vésperas dos natais e dias de ano mamãe ia no mercado Ribeiro, lá na Rua Araguaia, e comprava uma dúzia de guaraná Bem Bom. Eram garrafinhas de vidro. Metade seria distribuída no almoço e metade na janta.
Na falta de geladeira as garrafinhas eram refrescadas dentro de uma bacia de alumínio com água tirada do poço. Eu e minhas irmãs furávamos as tampinhas para dar pressão na bebida, que esguichava pelos buracos da tampa. Ás vezes papai comprava um garrafão grande de vinho tinto. Para as crianças mamãe mistura com água e adoçava.
Assim era o cotidiano até que veio a nossa primeira televisão, na casa da colega Ivone. A família dela era solidária. Deixava a porta da sala aberta e aumentava o volume do aparelho. E os meninos deixavam as brincadeiras e disputavam os vãos das balaústres de madeira da cerca de casa de Ivone.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

CRÔNICA – E quem não gosta de levar vantagem em tudo?

Gerson, bom de bola e habilidoso no gramado, pagou por todos nós só por ter aceitado ser propagandista com um tema polêmico num raro momento de reflexão da sociedade brasileira





            Como se fora a terra de ninguém e de todos, sem leis, sem valores éticos e morais e, sem alicerces culturais. Nos municípios, nos Estados e no País a situação parece igual: os grandes “trabalham” para levar grandes vantagens: os pequenos trabalham para ficar com as insignificantes vantagens.
            Os grandes “trabalham” tem aspas, sim senhor. Os pequenos trabalham nem aspas tem. O motivo todo mundo sabe. Mas se cabe um exemplo é para destacar que entre os grandes podem existir autoridades com aspas e autoridades sem aspas. Sejam empresário, políticos, agropecuaristas, patrões, empregados de cargos elevados e, por justiça, personalidades de fato.
            Uma caminhada a pé por algumas ruas de Londrina mostra o que é vantagem e o que é desvantagem. Na Avenida Maringá, a legislação aprovada pela Câmara de Vereadores durante a gestão de um ex-prefeito fez o recuo para o estacionamento de veículos nos estabelecimentos comerciais virar uma piada.
            Entrada de mercadorias nos mesmos estabelecimentos é um problema. Grandes fornecedores com empregados mal pagos e despreparados desrespeitam a lei na cara dura e descarregam frangos, carne, pacotes de arroz, colchões e outros produtores onde puderem.
            O piso tátil, também fruto da legislação em vigor para facilitar a vida das pessoas com deficiências visuais, não existe para quem enxerga tão bem a ponto de poder comprar e conduzir um carro. Alguns destes colocam seus veículos desaforadamente sobre o piso demarcado.
            Em outra vias de Londrina empresas revendedoras de carros seminovos estacionam suas mercadorias bem aonde o pedestre tem que passar para evitar um atropelamento. Há bares que instalam churrasqueiras nas calçadas. Areia e pedra em construções domésticas ou comerciais também impedem a passagem de pessoas pelos passeios.
            Na Rua João XXIII, que liga a Avenida Maringá a Avenida JK, na região central da cidade, a travessia entre uma escola e a parada de ônibus é demarcada com faixas brancas. Pouco adiante, onde se instalou uma churrascaria e no outro lado há uma igreja evangélica, a Prefeitura de Londrina mandou pintar faixa colorida para que os pedestres façam a travessia.
            O irônico: apesar da João XXIII ser rua de mão única e estacionamento permitido apenas à esquerda, nos horários de funcionamento da churrascaria ambos os lados da via são ocupados por carros estacionados. Inverdade: além da faixa de travessia colorida em frente à igreja, antes há o aviso de radar e a velocidade permitida é de 40 quilômetros por horas. Mas o radar não existe e a velocidades dos veículos é de disputa: “Vamos ver quem chega primeiro lá na JK”.
            No Calçadão Central de Londrina, em determinados horários há duas ou mais viaturas da Guarda Municipal fiscalizando não se sabe o que no local. Alguns passos adiante, na Rua Quintino Bocaiúva, seja manhã ou tarde há desocupados deitados nos bancos de cimento da área pública. Só não passa a Guarda Municipal por lá.
            Os agentes de trânsito de Londrina, que logo após o surgimento da corporação contribuiram em parte com a disciplina no sistema viário da cidade, embora muitos londrinenses receiam a predominância da indústria da multa, estão escassos e desvalorizados na gestão do atual prefeito, que prefere armar os Guardas Municipais.
            Para que? Tomara que não seja para os mesmos passearem armados, com suas viaturas, no Calçadão Central de Londrina. E quanto aos Agentes de Trânsito, é bom dizer que da mesma forma que houve falhas, como acontece em todos os segmentos nesta terra de ninguém, também restaram contribuições.
            A cidade é grande e pequena para tantos donos e tamanha escassez de valores morais e éticos. Qual será a fila que vou conseguir furar hoje? Conheço o assessor do chefe daquela repartição estadual. Vou ver se consigo apressar o encaminhamento daquele nosso processo.
            O Estado é enorme em dinheiro desviado, como mostram as investigações de desvios na Receita Estadual. Mas se eu apoiar tal candidato a deputado estadual nas próximas eleições e ele for eleito tenho certeza que consigo um emprego num órgão público. Até um deputado federal conseguiu vaga de diretor para seu filho e um prefeito vizinho tem mulher com cargo comissionado em Londrina.
            O País também é gigante em casos de corrupção. Mensalão, Petrobras, BNDES e o que mais? São tantas autoridades querendo vantagens... mas meu filho passou no concurso do banco estatal e eu tenho um vizinho que é muito conhecido de um político do atual governo. Vou conversar com ele para apressar a convocação do meu guri e que seja para uma cidade bem perto.
            E só o Gerson, coitado, que entre as habilidades de jogador de futebol sabia sair em vantagem com a bola nos pés para as suas jogadas certeiras, foi condenado por protagonizar um anuncio comercial dizendo que “gostava de levar vantagem em tudo”. Menos, Seu Gerson. Você só levava vantagem em campo, durante um jogo. Porque foi se meter a propagandista num país que é terra sem leis e de todo mundo?

Livro lançado em 1994 já tratava da origem da corrupção no Brasil





            Professor de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina e mestre em Pensamento Luso-Brasileiro pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, Antonio Frederico Zancanaro, atualmente aposentado, lançou em 1994 o livro “A Corrupção Político-Administrativa no Brasil”. O tema foi objeto de pesquisa de Zancanaro para a monografia de mestrado, na Gama Filho.
            Passados mais de 20 anos, o filósofo londrinense, que também atuou em Umuarama, continua autor de um livro que serve para todos os momentos deste País chamado Brasil, especialmente o agora, tão semelhante à época da colonização portuguesa que contribuiu, segundo Zancanaro, decisivamente na formação moral e ética de nós, brasileiros.
            “Perdida a capacidade oficial do Estado de solucionar os crônicos problemas sociais e econômicos e convivendo com a permanente manipulação do Direito, a sociedade desenvolveu uma mentalidade de faz de conta em relação à lei”, diz o autor na conclusão da monografia.
            “Quem não ingressasse nos negócios escusos sentia-se socialmente inútil e impossibilitado de progredir. Passou-se, então, a viver segundo padrões individualistas, cada cidadão ocupado em amealhar o seu quinhão, enquanto esperava nas medidas oficiais a solução de seus problemas”, prossegue Zancanaro.
            Antes, porém, na mesma parte conclusiva, o autor diz: “A corrupção político-administrativa no Brasil possui um viés cultural, como parte do legado do descobridor português. Presente nas práticas políticas e administrativas antissociais, implementadas pelos dirigentes do Reino, foi incorporada às idéias, índole, valores, filosofia de vida e de trabalho da sociedade lusa. E, com o descobrimento, foi repassada à sociedade brasileira nascente pelos aventureiros, mercadores, exploradores e funcionários régios através de um processo informal”.
            O duro é que, igual chulé, isso permanece fortemente impregnado na nossa cultura. O professor diz que só um sério projeto político-educativo de formação para a cidadania vai acabar com isso. A pátria educativa de agora e de praticamente todos os governos anteriores, portanto, não é recomendado. E como os horizontes são nublados, eu quero o meu naco: vou logo furar a fila do SUS com um conhecido lá do hospital que sempre me quebra o galho.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

REPORTAGEM – Três dias no lombo de um burrinho e a vida dos Nakama acontece em Londrina

Padeiro, carroceiro, cerealista, feirante, comerciante de
bar e empresário do ramo de combustível, entre outras atividades, fizeram de Maria e Saitoko, que chegaram em meados dos anos de 1940, grandes batalhadores; depois, lá nos anos de 1960, Maria fundou um salão de beleza, que a filha Helena mantém até hoje e a neta Andressa encara de cabeça após deixar a área de Direito, na qual se formou e se especializou.


Andressa e Helena ladeiam Maria: três gerações 
no instituto de beleza

Aos fundos, a casa construída por Saitoku Nakana
na Rua Guaporé; a construção da frente está sendo preparada
para aumentar o instituto de beleza

No quintal vizinho, a casa que serviu de alojamento
para os trabalhadores da empresa dos Nakama


 A ORIGEM

            Os 136 quilômetros em linha reta entre Londrina e a cidade paulista de Álvares Machado pareciam muito mais naquela época em que dona Maria Tomoyoshi Nakama, com a filha Helena, de oito meses, nos braços, e grávida do segundo filho, Fernando, viajou de lá para cá num caminhão. O marido dela, Saitoku Nakama, decidira fazer o percurso no lombo de um burrinho, pois havia planejado trabalhar no Norte do Paraná com a venda de frutas e verduras.
            A carrocinha que seria puxada pelo burrinho veio de trem. Mas o animal não podia ser transportado. Saitoku demorou três dias para chegar. É conveniente explicar que, atualmente, de carro, rodando em rodovias convencionais, a distância entre Londrina e Álvares Machado é de 172 quilômetros. Pisando leve o percurso pode ser feito tranquilamente em, no máximo, três horas. Mas a viagem de Maria e Helena no caminhão e de Saitoku no lombo do burrinho foi em 1944. Estradas eram, quando havia um traçado feito, muito precárias.
            Dona Maria lembra que o burrinho que pertencia ao marido era teimoso, pois não havia sido adestrado. A possibilidade de o animal empacar nas ruas de Londrina quando Saitoku saísse para vender as frutas e as verduras levantou preocupação. Foi então que o irmão de Maria se dispôs a trocar o burrinho adestrado que possuía pelo burrinho teimoso que era do cunhado.
            Saitoku, já falecido, nasceu no Japão e chegou ao Brasil quando estava com 17 anos de idade. A família se estabeleceu na região de Araraquara, no Estado de São Paulo. Um dia Saitoku escreveu uma carta a parentes que moravam na região de Álvares Machado. Ele queria aprender a trabalhar na construção civil, mas resposta à carta enviada aos parentes foi categórica: que ele mudasse para aquela cidade e aprendesse o oficio de padeiro, no qual parentes já trabalhavam.
            Maria nasceu na localidade de Prainha, na região de Santos, Estado de São Paulo, no dia 17 de dezembro de 1924. Com 90 anos de idade, esbanja vigor e mostra-se bastante disposta. Maria e Saitoku tiveram, além de Helena e Fernando (já falecido), o terceiro filho, Luiz Carlos.
            Em Londrina, a primeira moradia foi numa chácara. Mas pouco tempo depois a família adquiriu terreno na região da Vila Nova. A casa construída no local por Saitoku, já em alvenaria, ainda se mostra impecável na Rua Guaporé, próximo a Rua Araguaia.
            Maria sempre participou ativamente das atividades econômicas do marido. Ela lembra que quando Saitoku vendia frutas e verduras na carrocinha puxada pelo burrinho que o trouxe de Álvares Machado até Londrina, os fregueses saiam às ruas para esperar a chegada do verdureiro.
            Tempos depois Saitoku e Maria tornaram-se grandes empresários do ramo de cereais e de transporte. A sede principal da empresa ficava na Rua Guaporé, perto da primeira casa construída por Saitoku. Devido à movimentação, além da sede principal um outro local nas proximidades foi alugado para a empresa. Uma casa de madeira nos fundos de onde a família morava servia de alojamento para trabalhadores da cerealista. Dona Maria era a responsável pela alimentação dos empregados e pelas boas condições do alojamento.
            Saitoku ia buscar arroz no Rio Grande. A cebola, que na época era vendida em réstia, também vinha de lá. De Araraquara a empresa trazia açúcar para fornecer na região. Do Mato Grosso vinha quirela de arroz que era fornecida para uma cervejaria de Londrina. “Os caminhões grandes eram para trazer produtos de fora. Os pequenos eram para fazer a praça”, relata Maria.
            Saitoku também teve banca de feira livre no centro de Londrina. Foi também dono de um bar na Rua Quintino Bocaiúva e empresário do segmento de transporte. Por 12 anos, antes de se aposentar, foi para São Paulo onde comprou um posto de combustível perto da Ceasa. Com a aposentadoria Saitoku e Maria retornaram a Londrina. Ela mora hoje no Bairro Aeroporto. A casa que Saitoku construiu na Rua Guaporé é habitada pela filha Helena e pela neta Andressa, casada com Luiz Roberto e pais de Luiz Henrique e Luiz Guilherme.

DE MÃE PARA FILHA...  

Maria e o diploma obtido em 1963

O diplona da filha Helena, de 1966

            As mulheres da família sustentam um negócio que já está na terceira geração desde que Saitoku e Maria vieram de Álvares Machado para Londrina. Trata-se de um salão de beleza fundado por Maria na região central da cidade. Ficava na Rua Mato Grosso, no quarteirão em frente a uma das entradas do Shopping Royal.
            Maria tem diploma, datado de 20 de setembro de 1963, de cabeleireira. No salão dela também funcionava uma escola de cabeleireiros. Por isso o estabelecimento era enorme: havia 11 espelhos (bancadas).
            A filha Helena estudava piano e fazia o curso normal. Apesar de morar em Londrina ela ia até Cambé, onde tinha aulas com o maestro Andréa Nuzzi, autor do hino da cidade vizinha, e cursava normal na escola Gabriela Mistral.
            “Ela queria ser professora”, afirma Maria, sobre a filha. A passagem de Helena pelo salão da mãe ocorria nos fins de semana, para uma ajuda ou outra. Nem quando Maria adoeceu e precisou ir a São Paulo para tratamento Helena aceitou ficar com o salão que a mãe havia montado. Maria vendeu o estabelecimento: “Vendi barato e a prestação”.
            Não demorou muito e Helena deixou o sonho de ser professora para abrir um novo salão, na frente da casa construída lá pelos anos de 1940 pelo pai, Saitoku. Só na residência, que pelas contas de Maria deve ter 69 anos, a filha Helena está morando há 62 anos. O salão Helena Yamada – Instituto de Beleza, está para completar em breve 50 anos.
            “Antes não havia o costume das mulheres marcarem horário para ir ao salão. Como elas eram mais assíduas nesses locais, para arrumar os cabelos até para as missas e os cultos dos finais de semana, as mulheres iam direto nos salões e chegavam a formar fila”, lembra Helena. “Aqui a fila chegava na Rua Guaporé”, acrescenta.
            Helena, que chegou a Londrina quando estava com oito meses de idade, nasceu na localidade de Nova Pátria, perto de Álvares Machado, no Estado de São Paulo. Helena casou com Emílio Yamada, que faleceu há 11 anos. O casal teve os filhos Aristóteles (falecido), Andressa e Alexandre. São dois netos.
             
...E CHEGA A VEZ DA NETA

Andressa acumula certificados e
preocupa-se com a profissionalização do negócio
  
            Andressa Yamada Maccagnan, a filha de Helena, nasceu no dia 4 de outubro de 1976, em Londrina. Casada com Luiz Roberto Maccagnan, é mãe de Luiz Henrique Yamada Maccagnan e Luiz Guilherme Yamada Maccagnan.
            Andressa é formada em Direito e tem pós-graduação em Direito Empresarial. Também freqüentou a pós-graduação de Direito Previdenciário, mas não chegou a finalizar o processo para obtenção de certificado.
            Mas Andressa é cabeleireira. Ela trabalhou na área de sua formação. Por dez anos foi funcionário do cartório eleitoral em Londrina. Por um ano atuou no Centro de Atendimento à Mulher (CAM), também na área de Direito. Outros dois anos de trabalho foram na área de assessoria em um escritório de advocacia.
            A exemplo do que ocorreu com a mãe, Helena, Andressa também ajudava no salão nos fins de semana. Mas foi o nascimento do primeiro filho que fez Andressa largar a área de Direito e entrar com tudo na de beleza. Luiz Henrique nasceu em 2005 e um ano depois Andressa havia inclusive voltado a morar com a mãe, na Rua Guaporé, junto com o marido e os filhos.
            “Foi forte a questão da flexibilidade de horário na minha decisão. Eu queria ter uma atividade mas dispondo de condições para a minha família”, diz Andressa. Pesaram, também, as sugestões de algumas amigas: “A Isaura Kakuno foi uma das principais incentivadoras. Ela há tempos me dizia que eu devia me dedicar ao Instituto de Beleza junto com a minha mãe. Também me incentivava muito a Adriana Ferreira, que é professora na Universidade Estadual de Londrina”.
            Isaura é filha de Tsuguio Kakuno, alfaiate que foi personagem de reportagem neste blog. “A mãe da Isaura freqüentava o salão da minha mãe. E eu sempre tive uma admiração pela Isaura, pelo modo de ela ser, se vestir e se cuidar sempre com muita elegância”, diz Andressa, que enfatiza, ainda: “Além desses motivos todos a oportunidade de trabalhar com minha mãe foi muito influenciadora, principalmente por tudo o que ela fez por mim”.
            Andressa freqüentou dezenas de cursos para estar em dia com as técnicas e as novidades da área de beleza. Além de se dedicar ao Salão ela é executiva da Jeunesse e mantém uma loja virtual de produtos de beleza. É também voluntária e nesta condição ministra cursos de profissionalização na área de beleza.
            Andressa diz também que dona Olga, mãe do profissional Lincoln Tramontina, a incentiva muito, principalmente para que ela focasse o salão de beleza com visão empresarial e, enfim, como um empreendimento. 
            A participação de Andressa no negócio da família contribui, assim, também para a tomada de decisões empresarias. “Com a minha mãe o salão era bem doméstico. Hoje eu e ela trabalhamos com recursos de administração do empreendimento, como na questão do estoque. Mas de forma alguma minha mãe abandona a relação com a clientela, de algo próximo na beleza das pessoas. Tem freguesas que mudaram de bairro e continuam vindo aqui”.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

REPORTAGEM – O homem lá em cima na frente da telona do cinema

Alcides Cândido operou por quase três décadas os
projetores de cinemas de cidades
da região de Londrina




Nas fotos, Alcides em frente ao painel do antigo
Cine Vila Rica, em Londrina; o projetor chegou a conhecer Mazzaropi, que vinha trazer pessoalmente
os rolos de seus filmes

Alcides Cândido de Souza, casado com Eurides Saraiva e pai de três filhos, todos nascidos em Cambé, é hoje, aos 68 anos de idade, um respeitado zelador de edifício no centro de Londrina. Mas, por 27 anos, ele trabalhou naquele lugar dos cinemas onde muitos garotos gostariam de ficar durante as exibições: a salinha lá em cima, onde ficavam os projetores das fitas em exibição.
Ele trabalhou em Cambé, Rolândia, Londrina e cinemas de outras cidades da região, como funcionário da Empresa Araújo Passos. Os último cinemas por onde Alcides passou foram os cines Vila Rica e Londrina, onde foi gerente.
Em Cambé Alcides trabalhou de 1967 a 1977. Ele lembra que a salinha de projeção esquentava, pois os projetores funcionavam com dois elétrodos de 70 a 90 amperes. “Só tinha a janelinha da projeção e a do operador acompanhar a tela. Raramente dava para sair da salinha”.
Mas se havia garotos que queriam estar no lugar dele, Alcides desenrola o novelo e conta que após as exibições os operadores tinham que rebobinar os filmes, manualmente. O filme “Os Dez Mandamentos” tinha 24 rolos, cada um com cerca de 20 minutos de duração, conforme calcula Alcides.
Além do Vila Rica e do Londrina, Alcides trabalhou também em Londrina no Cine Augusto, Cine Jóia e Cine Espacial, que funcionava na Vila Nova. Em Cambé, conforme relata, ele chegou muito pobre. Morava nas proximidades da Rua Caçadores e teve que improvisar uma cama sobre latões de tinta. O colchão era de palha e tinha que ser batido diariamente para acomodar o recheio de acordo com a preferência do corpo que nele deitava.
O Bar do Pinga era o local de estadia nas horas de folga. O namoro do operador de projeção foi lá pelas bandas da Fonte Luminosa da Praça Getúlio Vargas até o Caramanchão da Igreja Matriz Santo Antônio, durante as quermesses em Cambé. Quando estava trabalhando Alcides olhava, de uma janela do prédio do cinema, a pretendida passando pelas redondezas.
“Ela – a dona Eurides - morava perto de casa e quando eu ia trabalhar no cinema a via varrendo o quintal ou a frente de casa, perto da cerca de balaústres. Eu passava e olhava para ela, que correspondia. Chegando lá em cima, pelas proximidades da Rua Caçadores, eu olhava para trás e acenava. Ela correspondia”.
Dessa troca de gentilezas aconteceram, depois, as trocas de presentes e o namoro, que durou cerca de oito meses. Um dia Alcides e dona Eurides fugiram para casar.
Segundo Alcides, no período em que ficou em Cambé um dos filmes com recorde de público no Cine Universo foi “Uma Longa Fila de Cruz”, que conta a história de caçadores de recompensa atrás de um bando especializado em assassinar mexicanos que cruzam a fronteira americana.
É uma produção italiana de 1970, dirigido por Sergio Garrone, e trás no elenco Anthony Steffen, Willian Berger, Ricardo Garrone, Nicholetta Machiaveli, Mario Brega e Fred Robsham. O filme “Fugindo do Inferno”, com Steve McQueen, trata do nazismo e de seus campos de concentração e também deu boa bilheteria em Cambé.
O outro lado da história é que o operador de projeção assiste filmes de graça. Mas até a exaustão. Alcides assistiu o filme “O Exorcista” umas 200 vezes. “Na maioria das vezes a gente conhecia o filme até de trás para frente”.
Em Londrina, Alcides conheceu Mazzaropi. Chegou a beber café na Padaria Olímpia com o astro brasileiro. É que nos últimos filmes do astro, depois que Mazzaropi montou seu próprio estúdio cinematográfico e produtora, ele próprio, mesmo sendo astro, levava os seus filmes para as salas de exibição. “Trazia três rolos do filme na mão direita e dois na mão esquerda”, diz Alcides. 
Era uma forma de Mazzaropi garantir que seus filmes não fossem manipulados pelas empresas cinematográficas. Naqueles tempos, segundo Alcides, algumas salas de projeção compravam filmes nacionais somente para cumprir as determinações do Conselho Nacional do Cinema. Estes filmes, porém, não chegavam a ser exibidos.

A última sessão de cinema



Nas fotos, cenas de 
“Os Caçadores da Serpente Dourada”

Cambé está sem cinema desde 1983. A última sessão na cidade foi no feriado de 15 de novembro daquele ano. A atração era quase um lançamento: “I Cacciatori Del Cobra D’oro”, no título italiano original, ou “Os Caçadores da Serpente Dourada”, no português.
O filme havia sido lançado em 11 de agosto de 1982. Produzido por Gianfranco Couvoumdjian e dirigido por Antonio Margheriti, o roteiro do próprio Gianfranco junto com Tito Carpi é tido por alguns críticos como uma cópia invejosa de “Os Caçadores da Arca Perdida”, de Steven Spielberg, lançado pouco antes.
A estória se passa na Segunda Guerra Mundial, nas Filipinas. Os heróis são os britânicos e os norte-americanos: David Warbeck faz o papel de Bob Jackson e John Steiner é o Capitão David Franks. Ambos são convocados por suas respectivas embaixadas, nas Filipinas, para invadirem uma base japonesa. Lá teriam que eliminar o agente duplo traidor japonês Yamato. O elenco tem também Antonella Interlenghi, que faz o papel de Julie. 

Depois de tiros, armadilhas, vitórias e derrotas os heróis chegam a um baú de Yamoto, que havia fugido de avião. E o que encontram dentro? Uma serpente de ouro maciço! No cinema de Cambé cabiam 1.500 pessoas. Mas apenas 30 assistiram a última sessão.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

REPORTAGEM – Paulista, o caminhoneiro Luiz Oguido fez da Vila Nova, em Londrina, o seu porto seguro

Lá atrás, no início dos anos de 1950, ele vinha comprar
feijão e arroz em Londrina para abastecer o comércio da família, em Álvares Machado. Aqui conheceu Tieko, com quem teve a filha Ivete, que aumentou a família com o genro Antonio Carlos
e os netos Túllio, Thales e Alana


            Lá pelos anos de 1950, bem no comecinho da década, Luiz Tetsuo Oguido era um jovem trabalhador cuja ocupação reunia o útil ao agradável. Filho do comerciante Seiki Oguido, que era marido da senhora Uta Oguido, Luiz era o encarregado de vir da região de Álvares Machado, no Estado de São Paulo, para o Norte do Paraná comprar mercadorias para garantir aos fregueses um estoque de arroz e feijão colhidos na terra roxa de Londrina.
            Luiz vinha conduzindo o caminhão. E, além do serviço, conquistava amigos e começava a gostar de Londrina. Mais ainda: em 1951 conheceu Tokie, moça de uma família de pioneiros que chegou ao Norte do Paraná lá pelos fins dos anos de 1930. Luiz e Tokie tiveram filha única, a Ivete, que acabou se casando com Antonio Carlos Costa. Ambos são pais de Túllio, Thales e Alana.
            Voltando no tempo, cabe mencionar que Luiz casou com Tokie e a levou para o interior de são Paulo. Quatro anos passados, em 1956, o casal fez a mudança para Londrina. Foi aqui onde nasceu a Ivete. Há 12 anos Luiz está viúvo de Tokie. Há cinco anos ele decidiu morar com a filha, o genro e os três netos.
            Luiz é de uma família de oito irmãos, dos quais três já falecidos. Os dois irmãos mais velhos de Luiz nasceram no Japão. Quando Luiz e Tokie trocaram o interior de São Paulo por Londrina o irmão mais velho dele, Seiko, casado com Tsuro, já estava na cidade. Seiko teve nove filhos, dentre eles o já falecido Homero Oguido, que por anos representou o Norte do Paraná como deputado estadual na Assembléia Legislativa do Estado.
            Pois então. Caminhão e viagens. Luiz, que quando solteiro vinha a Londrina comprar arroz e feijão para o comércio que os pais mantinham em Álvares Machado, depois de casado ganhou do pai um caminhão e continuou a levar mercadorias do Norte do Paraná para São Paulo.
            Anos depois Luiz adquiriu outro caminhão e passou a trabalhar com transporte. Também foi funcionário da extinta Cooperativa Agrícola de Cotia, atuando no setor de preparação de sementes, mas com a tarefa de fazer transporte.
            Não é por coincidência que ele se aposentou como caminhoneiro. E apesar de enfrentar quilômetros de estradas por toda a vida profissional, este paulista nascido em Presidente Prudente no dia 25 de julho de 1930 tem Londrina, e especialmente a Vila Nova, como o seu porto seguro. Desde que chegou com a esposa Tokie e a mudança para a cidade, Luiz fixou residência no bairro onde vive até hoje.
            “Agora está tudo em cima de piche”, comenta sobre a diferença das estradas de hoje e de ontem, quando ele levava arroz e feijão do Norte do Paraná para
São Paulo.



Na foto, Luiz Oguido e a Rua Araguaia, na Vila Nova 

sábado, 22 de agosto de 2015

REPORTAGEM – Tsuguio Kakuno tem mais de seis décadas de Vila Nova

Pioneiro chegou a Londrina em 1952, quando estava com
17 anos de idade. Aprendeu o ofício de alfaiate com
o irmão e recebeu prêmio por ser considerado o mais
antigo profissional ainda em atividade





Nas fotos: Tsuguio Kakuno, que completa 80 anos
de idade no dia 2 de setembro de 2015; o Troféu Marilisa do Amaral Campos, concedido pelo Lions Rotary Club de
Londrina – Alvorada; a máquina de costura PFAFF,
comprada de segunda mão de um colega; tecidos e manequins, como nos velhos tempos

            De terno e gravata o pioneiro londrinense Tsuguio Kakuno ia à praça do centro de Londrina nos fins de semana para se encontrar com amigos e fazer novas amizades. E o mais importante: o programa das noites de sábado e domingo tinha como alvo o amor de alguma moça. Se a flecha do cupido acertasse em cheio o coração da pretendida a saída para os passeios seria em companhia promissora.
            Tsuguio, que neste 2 de setembro de 2015 completa 80 anos de idade (ele nasceu no ano de 1935), havia chegado de Araçatuba, Estado de São Paulo, em 1952. Foi lá que ele nasceu. Em Londrina, o porto seguro foi a companhia do irmão Yukio, que havia vindo antes, e mantinha uma alfaiataria na esquina da Rua Guaporé com a Rua Belém, na Grande Vila Nova.
            “O calçamento com paralelepípedo só chegava até a Rua Amapá, um quarteirão abaixo da Belém. Naquela época a Guaporé era também chamada de Pernambuco”, lembra Tsuguio. Ainda com poucas vias calçadas, o barro na temporada das chuvas e a poeira na estiagem eram desconfortáveis para um recém chegado. “Eu estava acostumado com São Paulo. Um dia, com sede, fui ao bar em frente da alfaiataria do meu irmão e pedi um refrigerante. E veio tudo sujo”.
            Mas os passeios no centro de Londrina, apesar da poeira, eram com terno e gravata. O Cine Ouro Verde, por exemplo, seguindo etiqueta de algumas tradicionais salas de exibição de São Paulo, nos seus primeiros anos de funcionamento só permitia a entrada de cavalheiros de terno e gravata, segundo Tsuguio.
            Não por coincidência, mas aproveitando o conhecimento do irmão, Tsuguio veio de São Paulo a Londrina com o propósito de aprender o ofício de alfaiate. “Antigamente o rapaz encomendava um terno para o noivado e seis meses depois, no casamento, encomendava mais dois: um para o casamento no civil e outro terno para o casamento no religioso”, relata Tsuguio.
            Londrina tinha na época em que o pioneiro chegou cerca de 75 mil habitantes, pouco mais da metade morando na zona rural. Pelas contas de Tsuguio, existiam 52 alfaiates na cidade. Só a Rua Duque de Caxias tinha 11 deles estabelecidos. Tsuguio, que após assumir a alfaiataria de Yukio quando o irmão decidiu ir para Curitiba, chegou a ter quatro funcionários no estabelecimento da Rua Guaporé esquina com a Rua Belém.
            Nesse local Tsuguio exerceu o ofício por 40 anos. Mas há 23 anos ele está instalado com a alfaiataria na Rua Araguaia. Até a vinda para Londrina, quando estava com 17 anos, Tsuguio trabalhou na roça. “Comecei a trabalhar muito cedo. Quando eu nasci meu pai tinha um sitiozinho. Mas teve que vender e passou a ser arrendatário. Ele trabalhava com algodão e a gente ajudava. Comecei cedo na lavoura também porque minha mãe morreu quando eu tinha sete anos de idade”.
            No dia 11 de novembro de 2011 Tuguo foi homenageado pelo Rotary Club de Londrina – Alvorada com o Troféu Marilisa do Amaral Campos. Na época ele foi considerado pela entidade como o mais antigo alfaiate ainda em atividade em Londrina.
            Como todo bom alfaiate Tsuguio tem duas máquinas de costura PFAFF em sua alfaiataria. A que ele usa foi comprada de segunda mão de um colega alfaiate. “Todo alfaiate tem uma PFAFF”, orgulha-se. Ele diz que a máquina que está usando vai costurar por um bom tempo mesmo depois que ele aposentar. A PFAFF veio importada da Alemanha.
            Tsuguio também tem dois ferros de passar daqueles usados por alfaiates. Um deles, que está guardado, pesa sete quilos. O que está em uso é um pouco mais leve: perto de cinco quilos.

A origem e as novas gerações



Nas fotos, a passadeira típica dos tradicionais
alfaiates e o ferro de passar com quase cinco quilos de peso

            Tsuguio Kakuno é filho do senhor Kota e da senhora Issae Kakuno. Nascidos no Japão, ambos chegaram ao Brasil, casados, poucos anos antes da guerra. Tiveram os filhos Yukio, Tuguo, Mitsue e Midori. Kota serviu na Marinha japonesa e só escapou de ser convocado para a guerra por estar no Brasil. Ele contava aos filhos que irmãos, cunhados e outros parentes que estavam no Japão e foram para a guerra morreram em combate.
            Tsuguio casou com Izumi quando estava com 20 anos de idade, já morando e trabalhando como alfaiate em Londrina. Ela faleceu há oito anos. O casal teve os filhos Izaura (formada em letras), Massao (engenheiro civil) e Paulino (cirurgião dentista). São três netas e um casal de bisnetos.
           
Certas lembranças


            “Não tinha um prédio pronto com elevador em Londrina quando eu cheguei em 1952”, lembra Tsuguio Kakuno. “Tinha quatro prédios começados: o Autolon, o Manela, o São Jorge Hotel e o Santo Antonio”, acrescenta.

            “O Cine Ouro Verde tinha acabado de inaugurar. Nos primeiros anos só entrava com terno e gravata, igual fazia no Cine Marrocos, em São Paulo”, reforça o pioneiro. “Aqui só tinha a Rádio Londrina”, relata. “Mais da metade da população de Londrina na época morava no sítio. Londrina tinha 75 mil habitantes”, reforça.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

REPORTAGEM – A Rua Juruá tem tudo a ver com o mecânico Nico

Filho do Seu Chiquinho Carroceiro chegou a Londrina
quando estava com dois anos de idade e foi morar na casa
de sape coberto com folha de palmeira lá na Vila Nova


Em pose para foto atrás do Nico, filho mais velho do
Seu Chiquinho, Nilce, que, estudou e lecionou no
Grupo Escolar Nilo Peçanha, na Rua Araguaia;
Guilherme, que também passou pelo Nilão,
assim como o Valdir, que abraça
a filha Gabriela
Francisco Breve, o Seu Chiquinho, 
com a esposa Ana (foto Álbum da Família)
Seu Chiquinho, a caráter: chapeuzinho
de feltro (foto Álbum da Família)
Iracema e o esposo Nico, com dois dos
filhos - Nico é o maiorzinho
(foto Álbum da Família)

            Antonio Aparecido Breve é todo prosa quando o tema da conversa é o lugar onde ele vive há 75 anos: a Vila Nova, em Londrina. Ele é mais conhecido como Nico. Nasceu em Porto Ferreira, Estado de São Paulo, no dia 31 de maio de 1938. Quando estava com dois anos, a família trocou o interior paulista pelo Norte do Paraná.
            Nico, casado com Iracema Almeida Breve, que faleceu há nove anos, é o filho mais velho de Seu Francisco Breve. E então? Quem é este cara? Melhor lembrar do Chiquinho Carroceiro, da Rua Juruá. Sim, o Seu Chiquinho que tinha também um pé de bode, daqueles de usar manivela para o motor pegar.
              Pois quem mora ou já morou na Vila Nova lembrou daquele senhor de chapeuzinho de feltro, sempre sorridente, tocando em frente sobre a carrocinha puxada por um valente burrico.
            Chiquinho, segundo o filho Nico e a neta Nilce, nasceu no dia 12 de julho de 1914 e faleceu em 14 de setembro de 1988. Foi casado com Ana Faian Breve, que faleceu em 2003 quando estava com 85 anos de idade.
            Depois de Nico nasceram Lúcio, Santo e a menina Olga, que faleceu ainda novinha logo após a chegada da família a Londrina. Chiquinho e Ana contabilizam dez netos, dois deles já falecidos. Há bisnetos e três trinetos.
            A pedagoga Nilce de Almeida Breve, filha de Nico, é uma das netas de Chiquinho e Ana. Ela é casada com Valdir Malaquias. Nilce é mãe de Guilherme e Gabriela.
            E como todo bom morador da Vila Nova no tempo em que o bairro ainda tinha mais capoeira do que quintais enfeitados com jardins ou enriquecidos com hortas, Nico foi aluno do Grupo Escolar da Vila Nova, depois batizado de Grupo Escolar Nilo Peçanha, na Rua Araguaia.
            Aliás, no bate papo na casa da filha Nilce, onde na sala se encontram também Valdir Malaquias e Guilherme, todos vão avisando rapidinho que também estudaram no Nilo Peçanha. Nilce também foi professora no estabelecimento de ensino que agora integra a rede estadual.
            “Fomos praticamente os fundadores da Vila Nova”, diz Nico. A casa que Seu Chiquinho comprou na Rua Juruá era de sape, coberto com folha de palmeira. “Eu andava a pé, com estilingue. A Rua Guaporé era todo barro”, recorda Nico. “Nós vimos a chegada do primeiro ônibus. Quando chovia, descia todo mundo para empurrar”.
            Seu Chiquinho comprou de Paulo Agari três terrenos na Rua Juruá. “O Paulo Agari era dono de tudo”. Por isso aqui é a Vila Agari”, informa Nico. Segundo ele, outro proprietário de terras na região da Vila Nova foi Luiz Marques de Mendonça, que doou áreas para a construção do Nilo Peçanha e do posto de saúde (Ubs) do bairro, além de outras doações importantes.

Mecânico por toda a vida

Os quintais reuniam a família e também
eram usados para a engorda das criações
(foto Álbum da Família)
Mecânico por mais de seis décadas,
Antonio Aparecido Breve fala com amor
do bairro onde esteve a vida toda

            Nico foi mecânico desde os 11 anos de idade e diz que parou devido a um problema na vista há um mês, quando deixou a casa da Vila Nova e foi morar com a filha, na Zona Norte de Londrina.
            “Quem abriu o campo de futebol foi o meu tio, Nego”, diz Nico, sobre o Campo do União, que existiu no quadrilátero formado pelas ruas Juruá, Solimões, Javari e Turiaçu.

            Informa também que o pai, Chiquinho, antes da abertura do campo plantava arroz e feijão no terreno. “Era tudo capoeira”, afirma sobre a região. “Era uma casinha aqui e outra lá”, acrescenta. “A Rua Araguaia era capoeira dos dois lados”. E vai longe a prosa com Nico, filho do Seu Chiquinho. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

REPORTAGEM – Uma praça no outro lado do muro

O casal Luiz e Bete, pais de Margarete, Ademar e Jorge
e avós de Henrique, Fábio, Luana e outros que virão
para marcar a história com capítulos importantes





Nas fotos, Bete e Luiz, diante da estante com troféus
conquistados por ele no beisebol; a praça, formosa com a sua vegetação; os arbustos, no centro, com enormes troncos; o Santuário de Nossa Senhora Aparecida

Bem pertinho do Santuário

            Diante da bela praça pública o homem estufa os peitos, prende a respiração e mostra ao interlocutor a vida verde e marrom da vegetação que, sem radicalismo e soberba, predomina suave sobre o cimento ao redor. Verde das folhas e marrom dos galhos e dos troncos. Concreto armado para cobrir e solo, esconder a terra, dar passagem as pessoas por trilhas sem poeira ou barro.
            O homem se chama Tsuguio Sato. Descendente de japoneses, ele não tem no registro de nascimento um nome em português. Mas mereceu um de batismo, Luiz. “Quando cheguei aqui as árvores, aquelas que estão no lado da praça, tinham os troncos da grossura de um dedo”, conta Luiz. No meio do cenário, real, há arbustos de troncos da grossura que um homem só não consegue abraçar.
            A chegada foi em 1968, dois anos depois de Luiz ter trocado o município de Sertaneja, na região de Cornélio Procópio, por Londrina. Em1966 Luiz veio morar na Rua Paranapanema, na Grande Vila Nova, em Londrina. Grande, porque a Vila Nova reúne incontáveis comunidades denominadas de vilas ou jardins.
            Luiz estava casado desde 8 de dezembro de 1962 com Yoshico, que também não tem nome português no registro de nascimento mas ganhou um de batismo, Bete. Ele nasceu no Distrito de Motuca, lá no Município de Araraquara, em São Paulo. Foi no dia 10 de maio de 1936. Ela é paranaense. O casal tem três filhos, Margarete, Ademar e Jorge. São três netos, Henrique, Fábio e Luana. O filho mais novo, Jorge, nasceu na casa em frente à praça da Rua Grajaú, na Vila Nova, quase vizinha ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida.
            Os Sato chegaram de São Paulo à região de Cornélio Procópio lá pelos anos de 1940. A família havia comprado mata virgem em Sertaneja, onde foi feita a derrubada e o plantio do café. A geada de 1955 foi desanimadora, mas os cafeicultores da região insistiram com a cultura. Cerca de cinco anos depois outra geada, tão forte como a de 55, causou mais prejuízos. Mas foi mesmo a de 1975 que tirou muita gente das lavouras, segundo lembra Luiz. Em 1955, quando ocorreu a primeira geada nos cafeeiros da família, Luiz estava no Exército, servindo no Boqueirão, em Curitiba.
            Quando veio casado com Bete para Londrina, o casal morou de aluguel na casa da Rua Paranapanema. A mudança para a moradia da Rua Grajaú, dois anos depois, foi também com contrato de aluguel. Mas tempos depois o proprietário ofereceu a casa para venda e Luiz fechou o negócio. Era uma moradia de madeira, que com o passar dos  anos recebeu melhorias em alvenaria. Chegou, enfim, um ponto em que Luiz e Bete decidiram derrubar tudo que havia para erguer a casa que eles tanto queriam no lugar.
           
Juntos desde o grupo escolar

            Bete e Luiz completam este ano, no dia 8 de dezembro, 53 anos de casados. Ambos contam que há três anos, nas Bodas de Ouro, decidiram eliminar os festejos comemorativos e viajaram para conhecer o Nordeste brasileiro. “O dinheiro que ia ser usado na festa nós doamos para a Igreja e para outros necessitados”, dizem Bete e Luiz.
            O amor de ambos foi resultado de uma convivência. Bete e Luiz estudaram na mesma escola municipal de Sertaneja. Depois, na adolescência e na juventude, ambos continuaram amigos ainda em Sertaneja participando da Associação dos Moços e da Associação das Moças do clube japonês da cidade.
            Luiz e Bete fazem questão de informar que naquele dezembro de 1962 ambos selaram a união conjugal com uma prática que era rara entre os membros da comunidade japonesa. Além do casamento no civil, que é praxe, Luiz e Bete também casaram no religioso, na Igreja Católica de Sertaneja.

Quase seis décadas de beisebol


            Luiz nem sabia como jogar beisebol quando chegou ao Norte do Paraná em fins dos anos de 1940. Mas, tempos depois, em 1953, graças ao convívio com os membros do clube japonês de Sertaneja, começou a treinar um esporte que só largou quase 60 anos passados, lá por volta de 2010.
            Nesse período colecionou medalhas e troféus, inclusive em competições internacionais. Também foi árbitro de beisebol, atividade que lhe rendeu um troféu que só ele e outro londrinense, Hiroshi Nagano, receberam da Associação de Árbitros.
            Uma das participações de Luiz como atleta em eventos mundiais foi no México, no ano de 1994. Na estante da sala da casa da Rua Grajaú, parte dos prêmios de Luiz podem ser vistos. Mas a esposa Bete diz que há muito mais pela casa, inclusive encaixotados.

Difícil falar da praça de ontem e de hoje

            Comparar a praça do passado com a de agora, nas palavras de Luiz, é difícil. “Mudou bastante”. Na beira da Rua Grajaú uma fileira de árvores foram arrancadas, para a construção de uma área de estacionamento de carros. “Quando mudei para cá a praça era florida”, diz.
            Havia também zelador e zeladora, além de guarda 24 horas. O tanque de peixe tinha carpas ornamentais. Nos tempos das quermesses, quando Roberto Carlos, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso e Wanderleia disputavam a preferência dos ouvintes das rádios AMs e já se ouvia Elvis e Beatles, mesmo com certa timidez, os moços ficavam postados em pontos estratégicos da praça, de braços cruzados, cinturão largo, calça Saint tropez e boca de sino, as moças passavam pelos corredores formados pelos rapazes.
            Daquele movimento, conhecido como footing, alguns namoros resultaram em casamentos. As igrejas da Vila Nova e do Jardim Shangri-la se revezavam nas quermesses, normalmente nos meses frios do meio do ano. Quando terminava a “grandiosa quermesse da Vila Nova” começava na semana seguinte a “grandioso quermesse da Paróquia Rainha dos Apóstolos”.
            Havia muito frango assado e batata frita, servidos num clima de namorico com os bilhete trocados no sistema que a rapaziada chamada de correio elegante. A festa na praça acontece, agora, uma vez por ano, em 12 de outubro, data da padroeira. Nossa Senhora Aparecida é homenageada em um mosaico de concreto levantado ao lado de onde existia o tanque de peixes ornamentais e a cascata também desativada. Nele é possível observar os dois pescadores ajoelhados, a imagem de Nossa Senhora e alguns peixes.
            Luiz acha que o policiamento mais constante amenizaria a onda de vandalismo e de presenças estranhas em alguns horários na praça. Uma vez por semana os idosos se reúnem de manhã para ginástica no local. A academia ao ar livre, instalada há pouco mais de um ano, tem frequência da vizinhança em alguns horários. Quantas vezes Luiz se muniu de líquido e pano para apagar as pixações no local?

            Em determinados horários, moradores de rua usam a plataforma em frente ao mosaico de Nossa Senhora Aparecida para dormir. 





Nas fotos acima, as pedras sobre o local onde havia um tanque
com peixes ornamentais; as escadas formavam uma
cascata; no mosaico, os pescadores que encontraram a imagem
de Nossa Senhora Aparecida e alguns peixes; em alguns horários do dia, a praça é ocupada por moradores de rua