segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Opinião - Um lance de otimismo pouco exagerado

A luz do fim do túnel é opaca. Clareia, mas não o suficiente. Por outro lado mantém-se acesa, qualquer que seja o vento que bata na chama. É provável que se fosse flamejante sofreria o impacto e mais que perder a força, sucumbiria.

É permanente por ser sóbria, assim diríamos. É sóbria porque desvia da euforia e segue o percurso do palpável, no chão firme e seguro, e leva até onde se é possível chegar.

Conversei recentemente com o economista sênior do Banco Mundial, Álvaro Manoel. Há 11 anos ele está em Washington, onde por nove integrou equipe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e há dois faz parte do Departamento de Política Econômica e Dívida Pública do Banco Mundial. Álvaro é de Cambé e foi professor de Economia da Universidade Estadual de Londrina.

Entre conversa de bastidor e o estúdio de gravação de uma emissora, para entrevistá-lo, trocamos idéias sobre a crise mundial que é por enquanto mais sentida lá fora, mas cujos efeitos enfrentamos no dia-a-dia, mesmo achando que estamos fora da linha de risco.

Nesse contato aproveitei a característica do entrevistado: Álvaro Manoel, que a serviço do FMI no passado e agora do Banco Mundial viaja por todo planeta, é um especialista, mas fala a língua de um cidadão que não precisa ser economista para compreender questões relacionadas à economia.

Por isso a conversa flui e aperfeiçoa-se espontaneamente, sem haver necessidade de forçar a barra. Claro, Álvaro Manoel é otimista, mas mantém a preocupação preventiva em relação aos tormentos que as dificuldades econômicas podem provocar num país.

Mas sem exageros. A preocupação preventiva é, em primeira escala, uma necessidade. Desse etapa parte-se para um plano de enfrentamento que é papel do governo. Da mesma forma, no nível das pessoas comuns, deve haver uma recomendação de cuidados, pois não temos como prever se os efeitos da crise mundial virão como um vento mais forte ou como um tufão.

No momento sentimos: a alta quase diária nos produtos básicos de supermercado, por exemplo, não são explicados nem pelos economistas brasileiros e muito menos pelas autoridades. O que temos são números oficiais que apresentam pequenas alterações. Os índices, aliás, parecem ser de outra realidade que não é a nossa. E não percebemos no governo qualquer plano de enfrentamento de situações adversas. O barco vai e a sensação que temos é de irmos à deriva.

Vi semana passada a posição da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo sobre a crise mundial. A entidade fala em risco de demissão. Isso é preocupante. Infelizmente estamos nas vésperas do Natal. E o consolo que nos resta é de afirmar, com convicção, que a luz se mantém acesa e teremos que ter força para, em primeiro momento, mantê-la no iluminando, e depois para tornar a sua claridade suficiente aos nossos projetos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crônica - A janela cai e eu ainda sonho com ela

Retorno mais uma vez à Vila Nova, o bairro onde cresci em Londrina. Cheguei agora à Rua Juruá. Minha casa é de madeira e nunca recebeu uma pintura. Manchadas pelas chuvas as tábuas são escuras, com tonalidades diferentes entre uma e outra mata junta.

Minha casa não tem varanda e eu tenho inveja dos vizinhos que têm varandas na frente e atrás. As janelas da minha casa são de tábuas e eu fico imaginando como seria bom olhar de dentro para fora pelas vidraças das casas que cercam àquela onde eu moro. São janelas sem trincos. As de casa são mantidas fechadas com taramelas de madeira.

Minha casa não tem forro e eu enxergo os telhados quando deito, à noite. Em madrugadas claras, quando as luzes são apagadas, eu conto os pontos onde a luminosidade invade minha casa através de furos e quebrados das telhas.

Chega-se à porta da sala da minha casa subindo uma escada de cinco degraus. Antes era de madeira, mas o tempo fez os pregos enferrujarem e um dia, por insistência de mamãe, o dono do imóvel mandou construir uma de cimento.

O piso da minha casa não é encerado. Tábuas iguais as das paredes forram o chão. Há frestas em vários pontos e eu me preocupo: e se um ladrão entra embaixo da minha casa e me espia pelas frestas?

A porta da cozinha dá para um quintal enorme. Ela só é fechada por dentro por uma taramela no meio e um trinco comum em cima. Uma tábua foi corroída pelo tempo e eu tenho muito medo: um rato pode entrar à noite.

Minha casa está levantada do chão por tocos de árvores. São toras antigas que apodrecem em contato com a terra. Uma delas, de tão velha, precisou de um reforço: meu pai encheu um latão com cimento e colocou ao lado para evitar que a casa cedesse. Foi nesse latão que um dia, na correria, escorei a coxa e me feri. Mamãe me levou nos braços até o Sandu, abaixo da linha férrea, onde deram oito pontos no machucado.

A janela da cozinha da minha casa estava com pregos soltos porque a madeira já não suportava qualquer remendo. Ela despencava e um empurrão por fora poderia derrubá-la. Eu ficava com medo de alguém invadir a minha casa à noite para roubar o que? Nada havia de valor.

Esta é a parte que mais me afeta. Quarenta anos depois, morando hoje em um apartamento de uma região nobre de Londrina, ainda sonho com a janela caindo. E nem a casa velha da Rua Juruá não encontro agora. Ela foi demolida.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Crônica - Papai Noel, por que o senhor chora?

Papai Noel arranjou um emprego temporário de 20 dias até às vésperas do Natal. Trabalha de segunda à sexta das 14 às 22 horas. Aos sábados pega no batente às 9 da manhã e segue até às 17 horas. Acertaram quatrocentos e cinquenta reais com ele, sem registro em carteira e sem direito a passe de ônibus. Mas Papai Noel tem uma refeição e um lanche assegurados por dia trabalhado.

É muito pouco. Mas o serviço não é difícil. A atividade nem treinamento exigiu. Apenas orientaram: fale o menos possível, sorria sempre, faça cara de bonzinho e repita sempre o ho, ho, ho. Pediram para ele repetir até acertar a altura e o tom: ho, ho, ho. Um pouquinho mais alto, mas nem tanto. Descontraído, sem forçar: ho, ho, ho. Repita olhando no espelho: ho, ho, ho.

Papai Noel tem uma carinha triste. É magro e baixo. Tem a pele escura e a cara pelada. Nenhum fio de barba. A loja que o contratou deu um jeito. Encheram a roupa de Papai Noel com espuma e ele ficou gordo. Para esconder a cor escura da pele colocaram nele uma barba postiça que começa nas pálpebras e cobre mais da metade do rosto. Um óculos de aro de metal esconde o resto.

Também perguntaram ao Papai Noel se ele tinha um botinão preto. Papai Noel, quando foi acertar o emprego temnporário, foi com o único calçado em boas condições que restava: um tênis cinza. Não servia. Tinha que ser preto e com salto. A loja resolveu o problema com uma botina de borracha, daquelas usadas por pessoas que trabalham em local úmido. Na borda do cano colaram chumaços branco de algodão.

O cinturão preto foi feito de tecido e fica retorcido. Papai Noel tem que ajeitá-lo sempre. Na cabeça, o gorro vermelho com borda branca e bola de lã também branca na ponta fica apertado. Mas se fosse um pouco mais largo cairia e mostraria os cabelos pretos e encaracolados de Papai Noel.

Para tirar fotos com as crianças a loja providenciou um trenó de madeira puxado por seis renas de massa plástica. Montaram um cenário para ele ficar. Além da tradicional árvore de folhas verdinhas e bolas vermelhas, com algodão imitando neve na copa, existem velas gigantes feitas com material reciclável e três bonecos de neve que simulam um sorriso apagado, distante, inexpressivo.

E ficam todos, esperando os visitantes, sob um calor que o sistema de ar condicionado não consegue amenizar. Os bonecos de neve não degelam. As velas nunca se apagam. A árvore se mantém verde, com bolas vermelhas e algodão sob a copa. Só o Papai Noel transpira.

O serviço temporário veio em boa hora. Ele estava desempregado e quebrava o galho vendendo CDs e DVDs piratas. Papai Noel ainda é novo, tem lá os seus cinquenta anos, mas já tem um neto e duas netas. Ontem uma menina de uns cinco anos, a mesma idade de uma das netas de Papai Noel, recebeu um abraço do bom velhinho, ganhou balas, tirou fotos no trenó e depois perguntou: "Papai Noel, por que o senhor está chorando? E ele respondeu com um ho, ho, ho que saiu tremido por causa do nó na garganta.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Crônica - Sobre panetones e suas embalagens

Dezembro tem dessas coisas. E vai o sujeito denunciando na cara o tédio de ter que seguir a mulher com um carrinho de roda engripada. Na virada de cada corredor ele tromba com  panetores. Com caixa de papelão, de latinha ou embrulhado em embalagens transparentes. As opções de sabor são variadas: de chocolate ou passas; chocolate branco ou preto; mais queimado ou no ponto. E assim vai.

Na semana passada um supermercado oferecia um produto muito em conta: pagava-se no caixa do estabelecimento R$ 3,58 e o consumidor levava para casa panetone para o café da tarde de sábado. Para o empurrador de carrinho, para a mulher que vai na frente selecionando os produtos, para o enjoado do filho que só gosta de marca boa, para a filha e o namorado dela que apenas beliscam, para a vovó que começa a comparar a qualidade das coisas de agora com as do passado.

Enfim, quando se trata de consumo caseiro, existe quase uma unanimidade entre o empurrador de carrinho e a mulher que seleciona. O argumento, sempre convincente, é o mesmo de todas as compras: “Oh bem, vamos levar dessa mais barato pra gente experimentar”. E o cara boceja, ajeita os pés nos chinelos, coça a cara e dá um grunhido: “Vamos...”

E chega a hora de escolher os panetones para presente: “O da Dagmar tem que ser de latinha, daquela marca”. Com aquele ânimo, o empurrador de carrinho pergunta, menos por curiosidade, mais pela obrigação de manter um diálogo: “Por que?” E ele fica sem resposta, pois a mulher já está lá na frente virando o corredor.

“Para o tio Leornardo pode ser um desses de caixa. Ele não faz muita questão. Gosta de tudo. Ou faz de conta que gosta...” E o cara coça a batata da perna direita com a sola do pé esquerdo, arrota disfarçadamente, e solta outro grunhido: “Por que?”

“Olha, pra tia Vita e pra sua irma Anselma vamos levar estes mesmo, de R$ 3,99. Poderia até ser o de R$ 3,58 que estamos levando pra casa, mas vai que elas descobrem que compramos na promoção”. E o cara, abordado justo quando olhava a moça de jeans apertando tudo, disfarça e pergunta: “Quem é mesmo que está com emoção?”

Acabou a compra. Ela reclama que ele não ajuda em nada. Ele diz que está com o saco cheio. Ela pede para ele esperar na fila de um caixa enquanto troca o saco de farinha que veio furado. Ele, distraído, vai para o caixa reservado às pessoas idosos, com deficiência ou bebê no colo e espera. Quando ela chega ele está na boca do caixa. E a moça informa: “O senhor não pode passar neste caixa”. O jogo é muito duro, crianças!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Conto - Mentiras, omissões e outras mentiras

Pequenos motivos dispensam telefonemas para esclarecer, tirar dúvidas, trocar idéias, discordar, elogiar, condenar ou acatar. Médios e grandes também.

Houve um tempo em que tudo era permitido. Uma vírgula no lugar errado e o celular estava pronto para que as perguntas fossem feitas. O que houve? O que causou isso? Algum descontentamento?

Por melhores que fossem as respostas, a provocação não era poupada: anda meio distraído ultimamente...
E mais perguntas, seguidas de outras. Fiz algo errado? Quer conversar sobre isso? Não está feliz comigo?
E outra provocação: está muito esquisito nos últimos dias...

Anita tinha esse jeito. Queria tudo no controle. Às vezes chegava à inconveniência de tanto telefonar para tirar satisfação. Do tipo: ontem, no jantar, reparei que você deixou a sobremesa de lado.

Justificativas feitas, ela simulava aceitar, mas emendava, logo em seguida. Estava com tanta pressa, ontem?
Irritante. Haroldo nem sempre respondia. Em certas ocasiões se omitia, sabendo que ela sofreria dias, semanas e até meses por não tem recebido atenção.

E jamais subestime Anita. Podia passar um bom tempo, mas ela encontrava uma maneira de retomar o assunto. Lembra que no mês passado, quando fomos naquele restaurante, você atendeu uma ligação no celular? Pois é. Fez uma cara de sonso. Quem é que estava do outro lado da linha? Alguma mulher? Sabe que dá para perceber, né? Você muda a voz e o jeito de falar...

Essas insinuações nem vinham ao caso no começo da relação. Era o tempo bom, das paixões, quando tudo se supera por causa do ardor. E durou mais ou menos um ano e meio. Haroldo concordava com si próprio que havia sido um período longo.

Passada esta fase ainda restava o amor. Foi quando Haroldo decidiu responder às provocações de Anita com mentiras. Era, sim, uma mulher. Aliás, uma mulher muito respeitável: a minha tia lá de São Paulo.

E foram muitas mentiras. Ora a supervisora da loja, em seguida a caixa que não conseguiu bater o movimento do dia. A zeladora ligava todas as noite, avisando que havia terminado a limpeza e perguntando se precisava de mais alguma coisa. E Haroldo até aumentava o tamanho da mentira. Combinei com a zeladora para telefonar todos os dias antes de ir embora. Senão, você já viu. Relaxa e deixa metade sujo.

Como também foram tantas as invenções que não havia mais em que se inspirar para justificar ligações telefônicas, saídas mais rápidas dos encontros diários, ausências e serviços extraordinários. Cursos, então, foram constantes.

E Haroldo optou pelas omissões. Deixar Anita perguntar e nada responder. Fazer ela sofrer de curiosidade. Calar como se estivesse consentindo com as provocações. Foi então que ele percebeu que nem um restinho de amor sobrava naquela relação que foi mantida por conveniência e quase piedade.

Ou seja, mais uma mentira. E Anita já não faz perguntas nem dos grandes atrasos e ausências. Não é que ela tenha entregado os pontos. Ela decidiu também mentir. As provocações, agora, são para Diogo, colega de trabalho de Haroldo, e ainda estão na fase da paixão.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Crônica - Esta grande cidade é muito minha

A Quintino Bocaiúva era calçada com paralelepípedos e abaixo dela meu avô paterno mantinha uma quitanda, na Belo Horizonte, logo após a esquina com a Fernando de Noronha. O telefone da quitanda do vovô era preto. Menino de calção de elástico descendo pelas nádegas, eu não podia mexer no aparelho. Mas assistia com curiosidade minha tia tirar o fone do gancho, acionar a manivela para chamar a telefonista e quando atendida pedir uma ligação.

Nasci naquele trecho do centro de Londrina e o parto foi em uma casa pouco mais adianta da quitanda, quase na esquina com a Mossoró. Nunca tive curiosidade de perguntar a minha mãe o nome da parteira que me ajudou a vir para este lado do mundo. Hoje que não a tenho mais sinto muita falta dessa informação. E não há parentes que possam me dar um sinal sobre a mulher que acompanhou minha mãe no parto.

Provavelmente ela morava naquela região do centro da cidade. O comércio já se estabelecia na Rua Belo Horizonte e vias próximas, mas ainda havia muitas residências. E elas deviam abrigar parteiras em quantidade suficiente para trazer londrinenses ao mundo. Poucas pessoas recorriam aos médicos e aos hospitais naquele tempo.

Nasci num dia 6 de maio do ano de 1956, mas só fui registrado no dia 26. Os 20 dias de atraso geravam multa, por isso as famílias diziam no cartório que a criança havia nascido na data em que estavam providenciando o registro. Com menos de um ano de idade meus pais mudaram-se para a Rua Juruá, na Vila Nova, um bairro abaixo da linha férrea que separava Londrina em dois.

A casa onde vivi até a adolescência era a de número 181. Na verdade, uma casinha velha, de tábuas escurecidas pelo tempo, sem forro e com porão de altura que cabia a gente, quando criança, de pé. O Assoalho era também de tábuas. As falhas na madeira mostravam frestas enormes em alguns pontos. A única rua calçada com paralelepípedo era a Araguaia. O resto era poeira na estiagem e barro na chuva.

Os nossos passeios eram no centro de Londrina. E, na volta, passávamos pela quitanda do vovô. Verduras e frutas dividiam o estabelecimento de uma porta com balas, doces, flores e refrigerantes. Às vezes vovô nos presenteava com um cacho de uva. Era uma fruta muita rara na nossa modesta casinha da Rua Juruá, onde tínhamos, em compensação, três pés de manga rosa, uma moita de cana-de-açúcar, um pé de limão rosa, um abacateiro e, na cerca, maracujá doce.

O Bosque Central de Londrina tinha uma área cercada. Era passagem obrigatória da família. Macacos, aves e pássaros podiam ser visto. São marcantes as idas ao centro para assistir o desfile de 7 de setembro. Na volta, pelo menos um pacote de pipoca salgada representava o prêmio pelo bom comportamento. Íamos ao Cemitério São Pedro a pé, da Vila Nova até depois do centro. E no caminho de volta, um contorno pela Belo Horizonte, na quitanda do vovô.

É aquela Londrina dos anos 60 e 70 que mantenho no meu coração. A cidade completa 77 anos de idade. Estou com 55. Ela permanece jovem e obteve muitas conquistas. Eu, se ainda não me sinto velho, sei que a idade vai apertando, diminuindo a velocidade dos passos, tornando as subidas mais acentuadas.

Mas continuo aquele londrinense que gosta de andar a pé pela cidade que o trouxe ao mundo e o acolhe. Sem egoísmo, eu digo: esta cidade é minha. Muito minha.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Conto - Uma boneca de presente para si mesma

A boneca que pronuncia vinte palavras é tão interessante quanto a que fala dez frases. E veja que o preço é o mesmo. Mas bem que Liliane gostaria de levar a que mexe os olhos. Esta é uma mocinha de cabelos alisados metida num vestido curto. E pisca com charme. Aquelas são bebês dizendo as primeiras conjunções de vogais e consoantes. Coisas simples e mais ditas, como vovó, vovô, chocolate e mama. Usam vestidos simples de desenhos infantis: bolinhas, xadrez, bichinhos e outras decorações comuns. Trazem chupetas e carregam mamadeiras. Tem mais recursos e custam mais. Falam quando obrigadas: a dona do brinquedo tem que apertar a barriga.

E se Liliane preferisse também aquela que conduz um carro cor de rosa, então as opções formariam um leque e a escolha, provavelmente, ficaria para depois. Sorte que ela ainda não chegou à boneca que dança. Melhor ainda por ter passado com desprezo pelo corredor onde estão expostas as que representam as estrangeiras. Algumas trazem em suas caixas toda a maquiagem necessária, além de vestidos, sapatos, correntes e pulseiras. São luxuosas e caladas. Não se encontra uma Barbie que diga papai ou mamãe. Quando o fazem, as pronúncias são em inglês.

Olha só a outra pedindo ajuda para colocar a pulseira. Muito moderninha, imagina Liliane. A moça que mexe os olhos é mais simples. Até por isso parece mais bela. Liliane não quer uma peruazinha moderna e jovem. Uma boneca tem, enfim, que representar o mais fielmente a infância. Por isso as que falam quando têm suas barrigas apertadas são interessantes.

E aquelas, maiores, pena que não fazem nada. Chamam a atenção por causa das expressões dos rostos. Algumas reproduzem asiáticas. Outras são mulatas. Isso é diferente. Fogem dos perfis das loiras, as que mais aparecem nos mostruários. Liliane está pensativa. Provavelmente imagina que algum estudo norteia os fabricantes. Do tipo, bonecas louras vendem mais.

E nenhuma decisão. Liliane está comprando uma boneca para presentear uma criança. Mas é como se estivesse fazendo a aquisição para si mesma. Na infância dela as bonecas eram de plástico com as pernas e os braços encaixados. Os meninos criavam casos com as meninas arrancando os membros dos brinquedos. Um leve amasso deformava a boneca. Os cabelos eram moldados com a própria massa. Os olhos e a boca eram desenhados. Por isso Liliane preferia as bonecas de pano que sua mãe fazia. E aquele brinquedo com cabelos feitos de fios de lã trocava de roupas que Liliane confeccionava na costura a mão.

Quase adolescente Liliane quis uma boneca que chorava quando era balançada. Nunca ganhou uma. Por isso ela imagina que a menina a ser presenteada gostará muita dos modelos que dizem vovó, vovô, papa, mama, chupeta, chocolate e outras palavras que as bonecas de pano nunca pronunciaram.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Crônica - Variedade, fartura e conversas em dia

O lagarto recheado era uma das especialidades de dona Luiza. Ao molho, a carne ficava macia e saborosa. Cortada em fatias, pedia repetição. Mas havia opções. O frango temperado e assado em casa, no forno do velho fogão de quatro bocas, fazia a turma esquecer do peru. Crocante por fora, a carne derretia na boca. E não há exagero nessa avaliação. Um peixe assado também era tradicional. Dona Luiza se preocupava com os diferentes gostos do filho único e das três irmãs, do marido, dos genros, da nora e dos netos.

Onze netos, a maioria na fase da correria, do copo de refrigerante virado, do arroz derramado no sofá. Sim, arroz. Dona Luiza não dispensava no Natal e no Ano Novo o sushi que ela mesma temperava e enrolava. Mas fazia questão de reservar uma panelada de arroz branco com alho, óleo e sal para os parentes que não tinham os olhos puxados. Ninguém tinha do que reclamar. A salada habitual era a adaptação da maionese: batata em pedaços grandes, ovos cortados ao meio e tempero com vinagre, pimenta do reino e sal. Nada de maionese, dona Luiza dispensava o uso daquilo.

Para beber, refrigerantes e vinho de garrafão. A marca não era nobre, mas o sabor ganhava simpatizantes a cada refeição. Dona Luiza acordava mais cedo no Natal e no Ano Novo. Ela sentia-se na obrigação de preparar sozinha toda a comida. Era uma forma de reunir a família. A turma começava a chegar lá pelas dez da manhã, quando os preparativos por conta daquela mulher já estavam bem encaminhados.

No almoço a comida era devorada sob conversas, gritarias das crianças, aparelho de tevê ligado e um ambiente interessante de soltura, desinteresse e fraternidade. Aquela era a família da dona Luiza: filho, filhas, nora, genros, netos, netas e marido. Ela comia pouco. Na verdade dona Luiza alimentava-se de felicidade por estar com a família.

Havia variedade e fartura na mesa de dona Luiza. Mas o luxo era desconsiderado. Costureira, aquela mulher trabalhou pelos filhos a vida toda. Com a renda do seu trabalho ajudava nas despesas de casa e economizava para as reuniões familiares que começavam pouco antes do almoço e só terminavam à noite, quando a mesa ficava praticamente vazia.

E ela sorria um sorriso de contentamento. Eu enxergo aquela expressão de felicidade todos os dias. O meu Natal é de poucos preparativos. Na verdade, eu passo pela data como se ela fosse mais um dia de nossas vidas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Crônica - Preparativos de certos tempos em certos locais

Ai Dagmar! Ganhei um frango lá do Zecão. É caipira, de carne durinha. Ele diz que caiu de uma carrocinha uns quatro, com os pezinhos amarrados, e o carroceiro entretido com a música do celular nem se tocou do prejuízo. Foi embora e os coitadinhos se debatendo no asfalto quente. O Zecão não teve outro jeito. O carroceiro se foi e os frangos ganharam um cercado de tela de arame lá no fundo do quintal dele. Ontem eu fui fazer um acerto daquele negócio e peguei um frango. Ta quitado e bem pago. Nem vai incomodar a cárie e dá pra palitar os dentes com os ossinhos.
  
Só vê se não precisa pegar um gás fiado lá na vendinha. Negocia com o cara. Diz que em janeiro a gente acerta. Se sair aquele servicinho que estou vendo na semana que vem é receber e pagar o gás. Já especulou se a sua patroa vai dar cesta de Natal? É em boa hora, viu? Vai fazer diferença. E nem precisa vir com aquelas coisas caras. Castanha, passas e latinha de patê é pra quem tem luxo. Cá pra nós, uma cesta básica completa é mais vantagem. Vê se negocia isso, mulher.

O vinho eu dou um jeito. Até passei no supermercado para espiar preço e está tudo lá em cima. Cinco e noventa, seis e setenta, oito e cinqüenta e sete. Tudo quebrado no preço, não sei pra que isso. Tem uns de dezoito contos. Cerveja eu prometi que não bebo mais. Se eu disse que não gosto é mentira. O bolso é que não permite. Mas se você autorizar eu compro uma garrafa de pinga para fazer umas batidinhas. Prometo que não vai ter exagero. Uma garrafa eu economizo pra ter batidinha no Natal e no Ano Novo.

E não se preocupe com o limão. Ali no caminho do canteiro de obras tem um quintal com um pé carregado. É limão rosa, mas serve. Dá até pra fazer suco com o que sobrar. E pra ninguém dizer que apanhei limão de quintal alheio sem consentimento eu faço um servicinho pra dona da casa. Tem lá um rachadão na calçada e ninguém da construção vai se importar se eu jogar um bocado de cimento pra consertar aquilo e deixar lisinho.

Eu não sei não se ganho alguma coisa. Sou terceirizado e temporário, estão dizendo que só ganha cesta quem tem carteira assinada. Mas bem que podia. Se der jeito ainda converso com o mestre de obra e vejo se não dá uma exceção. Quem sabe? É merecido, viu nega! Olha que a gente dá o sangue.

Só acho que não vai dar pra receber visita, viu? Fica de alerta e se a sua cunhada insistir abre o jogo. Avisa que aqui está escasseado, não é mole não. E que a gente não vai fazer nada, só a comida normal de um dia qualquer. Mas juro que um panetone eu vou comprar, isso tem que ter. Vejo um daqueles de três e noventa e nove. Não precisa ser encapado com caixa. O gosto é o mesmo, só a embalagem é mais cara.

É, nega, tem que apostar. No ano que vem melhora. Este ano eu me danei por conta da falta de serviço e nem seguro desemprego tive. Trabalhar terceirizado é assim. Mas acho que dou um jeito. Vou botar a vergonha de lado e viro cabo eleitoral. Mas em troca eu quero um emprego se o cara for eleito. Uai, tem um monte de gente que faz isso. E a gente, na modéstia, fica chupando o dedo...    

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Crônica - Os preparativos dos tempos de agora

Não quero bagunça em casa nem no Natal e nem no Ano Novo. Se algum parente convidar para almoçar fora a gente vai. Mas esqueçam aquelas insinuações do tipo, o seu apartamento é maior do que o nosso. Nada disso. Tudo bem, nesse caso a gente encomenda uma carne assada e leva.

Que reuniãozinha de colegas você está falando? Aqui em casa? Está lesa, menina? Onde? Não inventa moda. Veja com o seu pai se ele empresta de graça uma salinha lá da associação de funcionários. E não me diga que estou de má vontade. O regimento interno e o estatuto do condomínio está muito claro: nada de bagunça depois das dez da noite.

Depois imagina eu aqui tocando pra fora os seus coleguinhas às onze da noite com o síndico de plantão lá embaixo pronto para dar uma bronca. Nem pensar. Tudo bem, se o seu pai conseguir o local eu compro uns refrigerantes e encomendo um bolo. O que? Cerveja? E quem autorizou você a tomar cerveja fora de casa? 

Seu pai disse que pode? Se disse, não teve o meu consentimento e aqui se ele autorizou e eu não sei fica tudo na estaca zero. No máximo um espumantezinho bem fraco, mas isso a gente ainda vai conversar em família.

E quem foi que agendou esta novena de Natal aqui em casa? Não estou sabendo de nada. Agora vocês mandam e desmandam na casa? Eu falei que participava, mas não aqui em casa. Sei como é. Chega um e quer água. Outro pede pra ir ao banheiro e não dá descarga. E o piso fica todo riscado e sujo. Vocês vão limpar pra mim depois? Então dispensa. Digam que vamos viajar bem no dia da novena.

Escuta aqui, ô querido. Ligou o cara do sacolão dizendo que entrega na quinta a carne que você encomendou para o Natal. E eu fiz questão de perguntar: já vem assadinha, né? O cara riu na minha cara e disse que tem todos os ingredientes lá. Você está pensando, por acaso, que eu vou temperar carne e assar? Está doido, é?

Quem colocou isso na sua cabeça? O papa? Está pensando que eu vou passar a manhã do Natal temperando e assando carne? Ah, você faz isso. E quem é que vai fazer a limpeza do forno e da louça depois? O fantasminha camarada? Pode cancelar. Se não puder doa a carne crua que comprou pra entidade lá da rua de baixo. Eu não quero e está decidido. Assunto encerrado.

Está bem. Precisamos seguir a tradição. Você sugere uma árvore de Natal onde? Em cima da televisão? Ao lado do vaso sanitário? Na tampa da máquina de lavar roupa? Ah, estou entendendo. Quer que eu faça como sua mãe fazia: corre atrás de um galho de árvore, pinta o tronco de alumínio, bota uns chumaços de algodão sobre as folhas para imitar neve e pendura um monte de bolas coloridas. Ai pirou de vez. Se quer enfeite de Natal passa lá no bazar e compra uma guirlanda pequena pra pendurar na porta e pronto. Aqui dentro de casa não quero luzinha acendendo e apagando. Pode jogar a sua idéia fora.

O que mais precisamos decidir para o Natal e o Ano Novo? Lembrei. Então liga para a sua irmã e veja se a gente pode almoçar lá no Natal e telefona ainda está semana para o seu irmão para ver se ele não vai viajar no Ano Novo. Nos dois casos eu levo a carne assada, a maionese e o pudim, pois isso eu compro pronto no supermercado.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Conto - Outros tempos de preparativos

Laurita, desamarra a galinha e solta no cercado. Deixa ela correr naquele trecho pra dar músculo e não ficar mambembe na assadura. Manda Efigênia reservar uns cinco quilos de carne de porco. Mas pede a parte limpa, tem que ter um pouco de gordura na capa. Senão ela fica seca. Tem que pedir no armazém a reserva de uns dois garrafões de vinho. Cerveja não vai ter não. É cara. Se alguém quiser traga por conta. E a geladeira não agüenta gelar nem água.

Os meninos tem que aproveitar o percurso e ajuntar lenha. Tem gravetos no caminho e até aquelas estacas jogadas no canto do galpão dão fogo. Tem que por assado no fogo uma seis horas e se não pegar brasa ainda não fica no ponto. Macarrão tem que fazer sim. A Mirtes se encarrega, ela tem mão boa. Alguém dá jeito de limpar o cilindro para passar massa. E nem precisa capricho no corte, é só passar faca afiada de cima abaixo e a tira sai perfeita. O molho é melhor deixar pra Nena do tio Ambrósio. E nem põe carne moída naquilo. Carece não. É uns tomatões bem fervido com cebola e muita pimenta até chegar na calda grossa.

Fruta não preocupa. Sobra laranja rosa até para o suco. Dá quantidade bastante para as crianças. Pros moços libera o vinho. Pras moças faz uma espécie de mistura: dois dedos de vinho para um dedo de água. E adoça e põe gelo. Fica igual refrigerante. Manda liberar uns dias antes a parte de cima da geladeira e usa copinhos de plástico pra gelar água. Vai precisar muito. É capaz de fazer calor.

O bolo é missão da Toninha do primo Antão. Aquilo conhece. Não fica nem duro e nem fofo. Dá um ponto bem firme. É bom reservar carvão da sobra da lenha para usar no forno do quintal. Aquela meia saca de batata agüenta até lá. Cozinha com ovo e faz uma espécie de salada. Maionese a Rita prepara. Fica melhor que o comprado pronto. É gosto de verdade, a gente sente na boca.

Aquelas duas cadeiras deixa na varanda que depois eu arrumo. É só tornear uma perna e o resto conserto nos pregos. Se der tempo tem a sobra de tinta azul escura. Pinta tudo que esse branco encardiu. A mesa deixa na madeira pura, ninguém vai por reparo com a toalha presenteada pela vó Maria. Coitada. Ela faz falta hoje em dia. Mas não convinha ficar daquele jeito, cada dia mais esquecida. Era uma judiação. Tem dia que nem eu ela soube quem era.

Será que o Alfredo e a Saura passam o Natal aqui? Sei não, viraram gente da cidade. Fazer o que, é a vida. Mas é capaz deles passarem depois, lá no meio da tarde, só para dar um oi. Devem ter trocado de carro outra vez e nesta entrada a partir do asfalto que termina na mercearia é um solavanco. Não fosse o luxo eu ia buscar de Kombi. Vê se consegue propor a eles. Busco e levo a hora que for.

É bom chamar a Mariana. Viúva ainda de luto precisa de companhia. Os filhos ela não vai ter. Eles não ligam. A mulher vive sozinha. Pede a ela pra ajudar nos preparativos. Assim distrai, deixa de pensar na perda. Quem sabe ela não enxergue o mano Tadeu com bons olhos? Ta na hora de ele tomar juízo e arranjar companheira. Ou você não sabe que na solteirice dela o Tadeu tentou namoro? Todo mundo sabe. Só não deu certo porque ela era soberba. E deu nisso, a viuvez.

Depois pede a Acácio pra vir me ajudar. Vai dar umas vinte pessoas. Com ele eu monto uma mesa lá na coberta. Dá de ponta a outra e nem chuva atrapalha. Semana que vem a gente faz compras e eu me cuido pra não esquecer os pregos. O que tinha enferrujou de tanta falta de uso. Lembra que na terça ou na quarta a gente vai. Aproveita e passa na loja pra comprar calçados. O meu vai dando, lá pro meio do ano eu compro um par. Mas vê uma camisa, à noite tem missa lá no bairro e quero ir novo. Pelo menos no Natal...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Crônica - Bom Dia Homem de Neve!

Sim, Bom Dia! É a forma a que recorro para manifestar a minha solidariedade ao senhor. Vejo que não sorri e se mantém em silêncio desde que decidiram que o seu lugar é este: o gramado de um jardim, sob este sol dos trópicos. E nem mãos te fizeram para se abanar do calor.

Entendo. A missão que te deram é nobre e o sacrifício vale. Será? Leio a sua quietude e interpreto que deve trazer alegrias. Crianças posam ao seu lado para fotografias tiradas pelos pais. Os curiosos tem encaram e o seu papel é ficar impassível. Há quem ironize: o que este boneco de neve faz sob os céus dos trópicos?

Eles sabem que o senhor é um dos símbolos do Natal. Mas desconfiam: nos trópicos os bonecos de neve são injustificáveis, mesmo que para lembrar a chegada do Natal. Gente intolerante, concorda comigo?

Se fosse ao pé da letra então o Papai Noel não usaria um trenó puxado por renas por aqui. E nem as árvores natalinas teriam algodões imitando neve em suas copas. E este chapéu preto de material quente? Incomoda? E este cachecol vermelho no pescoço? Em mim causaria alergia devido à transpiração abundante.

Mas o senhor, homem de neve, está ciente da sua missão: fazer de conta que o Natal daqui é semelhante ao de lá, onde a neve cobre as ruas, as calçadas, os telhados e as árvores. E se te reservaram este papel aqui nos trópicos, o senhor deve, sim, cumpri-lo.

Faz muito calor neste seu lugar. Bate sol de manhã e à tarde. Não sou tão forte quanto o senhor. Devo me recolher à sombra e sei que farei isso com certo peso na consciência. Porque o senhor não sorri e se aquieta. 

Percebo que gostaria, se fosse seu arbítrio, alegrar as pessoas e anunciar o Natal de outro jeito. Mas nem a fala te deram para expor seus motivos. E eu, tão passivo quanto o senhor, me permito gozar de um pouco de frescor logo ali, sob aquela árvore que por ser natural e de uma espécie deste clima quente, resiste aos enfeites e não ganha neve de algodão.

Bom Dia Homem de Neve!