quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Crônica - Há veias abertas


Há de vir chuva, tudo indica. Menos as previsões publicadas nos jornais impressos ou declamadas por apresentadoras bonitas nos telejornais, os sintomas, de resto, são tantos. Lucinda faz a releitura de um livro. Passa um vento quase frio na varanda. Mas, se houvesse sol, ela jamais estaria naquele local para a pausa do depois do almoço. O calor subindo do piso seria insuportável.

As Veias Abertas da América Latina. Uma grande obra. Escrito há tempos por um jornalista e escritor uruguaio, Eduardo Galeano. Sim, tempo. Havia uma previsão de frente fria. É bom adiar a idéia de guardar as cobertas no maleiro do guarda-roupa. Além do trabalho de trazer a escada, ainda há o exercício de socar as peças para acomodá-las nos pequenos compartimentos.

A primeira leitura foi lá pelos anos de 1.970. Setenta e dois ou setenta e três, tanto faz. O livro foi lançado em setenta e um. Lucinda era estudante universitária. Na época a obra de Galeano foi censurada no Brasil e em outros países desta América Latina. O conteúdo ia contra os interesses dos ditadores que mandavam por aqui.

Lucinda tem dúvidas se na época chegou às últimas páginas. Era um período de militância, porém nem todos os alinhados estavam convictos. Ler A Ilha, de Fernando Morais, lançado em 1976, era regra. O tema é Cuba e quem não tinha leitura ou ao menos referência de uma obra desse porte era acusado de ser alienado. O mesmo ocorria com As Veias Abertas da América Latina.

Assim Lucinda, como tantos outros daqueles tempos, carregava na bolsa artesanal feita de pano pelo menos meia dúzia de livros bem vistos no meio universitário. Tempo! Será que essa chuva vem? Assim do jeito que está vigora uma sensação de desconforto: vento frio e poeira girando quase feito redemoinho. Quantas folhas no chão! Precisa sobrar um tempo para passar a vassoura.

Galeano fala do domínio estrangeiro sobre a América Latina. Primeiro os europeus. Depois os norte-americanos. Lucinda discursava na época do lançamento do livro contra o imperialismo americano. Mas não se furtou e em casa, longe da militância, bebeu coca-cola para provar o gosto do líquido preto adocicado. Gostou. Errou e traiu a militância? Se assim foi, ela sabe que muitos líderes se embebedavam com whisky. Ainda se fosse uísque, comprado do Paraguai...

As veias abertas falam do sangue derramado por aqui por culpa desses domínios. Sangue que sai da veia, com mortes, fome e violência de outras espécies. E coágulos cerebrais devido à interferência na cultura através de uma política limitadora. Quantas cabeças deixaram de pensar?

E imaginar que ainda hoje tem feijão para cozinhar. Na panela de pressão seria um tempo. Mas tem o fogão de lenha ali fora. Dá um cozido mais saboroso se o fogo vem dos gravetos catados no quintal. Leva horas de cozimento. Se a chuva vier tem que ser no fogão a gás. Se persistir este nublado dá para arriscar.

As Veias Abertas da América Latina teve venda reduzida nestes tempos de agora. Mas um presidente latino presenteou um presidente norte-americano com um exemplar. E o livro de Galeano, que ocupava o 54.295 num ranking de obras mais procuradas, no dia seguinte subiu para o segundo lugar. Foi por isso que Lucinda desengavetou o livro. Está certa que vai chegar à última página.

Há veias abertas na América Latina, pensa Lucinda. Da vizinhança vem uma música. Sertanejo universitário, o que é isso? Música para não pensar, conclui Lucinda. Primeiro os europeus, depois os norte-americanos e agora do jeito que eles queriam: nós mesmos nos matamos culturalmente.


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