terça-feira, 29 de novembro de 2011

Conto - Além da imagem refletida no espelho

Lisandra é uma imagem na parede decorada com vidro de uma loja do fim do corredor de uma galeria comercial no centro de Londrina. Cabelos aos ombros, estatura média e magra, o reflexo é tão imóvel quanto a própria mulher espelhada.

O vestido solto preso aos ombros com tiras largas cai bem. Desce até uns dedos acima dos joelhos em uma meia roda armada suavemente. A cor do tecido é clara, puxando para um azul que imita o jeans desbotado. É um modelo esportivo, com botões destacados na frente, de cima abaixo, e bolsos enormes na altura das coxas.

Uma menina, diria em outros tempos, ao se refletir, a mulher do fundo do espelho. Sandálias de poucas tiras, apenas suficientes para mantê-las nos pés, dão uma sensação de conforto. Rasteirinhas, também transmitem leveza em todos os sentidos. Inclusive da pessoa que as usa, cujas unhas pintadas de vermelho atraem os olhos de quem a vê caminhar.

Os cabelos, castanhos escuros e lisos, dariam a idéia de soltura e descompromisso com as formas sofisticadamente trabalhadas em salões cercados de espelhos. A maquiagem é leve. Nenhum tom forte causa impacto. Os lábios apenas brilham com o gloss teimosamente retocado.

Nem jóias e bijuterias aumentam o peso da mulher. No pescoço, pouco se percebe a corrente fina com a minúscula imagem de uma santa na ponta. Nas costas, a discreta tatuagem, em preto, com o nome de um homem. No pulso esquerdo, uma peça artesanal apenas quebra, feito uma tira fina com algumas pedras de enfeite, a brancura da pele.

Sempre foi assim. Lisandra é avessa aos excessos. Ou, como diriam os bons críticos, uma mocinha excessivamente simples que sabe usar o desapego aos acessórios como um charme. Tudo nela é básico. Houve quem comentasse que a beleza de Lisandra não impacta. É algo que entra sorrateira na imagem formada nos olhos de quem vê e se instala. Não é, enfim, beleza de arrancar suspiros. É um calejamento que inspira.

Falta-lhe, porém, o sorriso. E quando ele vem é naquele conjunto o único componente que levanta a suspeita de ser falso, fabricado sem critério, arranjado. Lisandra sorria antes, até quando parava na frente do espelho daquela loja para se orgulhar de sua simples beleza enquanto esperava por ele para o lanche do meio da tarde.

Se fosse uma lenda, haveria uma versão: ele, por uma maldade que não se tem explicação, roubou o autêntico sorriso da mulher do fundo do espelho e só deixou sua marca tatuada nas costas dela, que agora improvisa a falsa expressão de alegria com esforço tamanho. E ali se percebe que incomoda muito em Lisandra ter que fazer de conta que está feliz. A imagem no vidro põe o real sentimento muito além do reflexo.  

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