domingo, 11 de julho de 2010

Crônica - Pé de tangerina

O menino passou rente ao muro, tão alto quanto a altura da sua pretensão de ser grande. Dobrou o pescoço o quanto pode e virou a cara no rumo do sol. Apenas um galho do pé de tangerina, do lado de dentro do quintal, mostrou sua ponteira. Envergado de tanto peso, foi como se dissesse ao menino que compartilhasse de sua produção. O galho tinha muitos frutos, maduros e tentadores.

O muro alto fica bem em frente da minha janela. De cima eu vejo o menino que passa rente e encara com inocente cobiça as tangerinas do lado de lá. Não só aquele menino passa encostado ao muro. Muitos outros meninos cobiçam as frutas nas tardes de sol quente. Meninos que já passaram da flor da idade, meninos que tem 30 anos, meninos que somam 40 aniversários, meninos que vão ao trabalho, meninos que retornam da escola.

Alguns desses meninos tentam espichar os braços para apanhar uma fruta. Um cachorro alvoroça-se do lado de lá. Late, irrita, cumpre sua função de garantir a segurança do quintal, fechado com um portão de folhas. Senti vontade de escutar Chico Buarque cantando "Até Pensei", pois eu queria falar do muro e do pé de tangerina, mas não tenho a poesia para contar essa história com sutileza e sensibilidade. Eu empresto a canção do poeta, baixada do Youtube. Compartilhem comigo:

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