domingo, 23 de maio de 2010

O homem despido (Parte 4) - Sutilidades e arranjos no cotidiano brasileiro


Sorrateiro, o homem despido de sentimentos caminha a passos milimetricamente medidos. Não vacile e nem titubeia. Suas ações são planejadas. Ele também se despe de dignidade e guarda no canto mais inacessível do armário a vestimenta da ética.

Às vezes ele é um político. Outras vezes um jornalista. De vez em quando um profissional liberal. Não com tanta raridade aparece travestido de professor. Assume com ligeira facilidade carapuças diferentes: atleta, artista, bancário, escrivão. Policial, operário, vendedor, comerciante. Lixeiro, carpinteiro, padeiro, empacotador.

Um dia um autônomo contou aos risos, entre copos e garrafas de cerveja, que o caixa de um estabelecimento comercial havia devolvido troco errado. O erro havia sido feio, de grande montante. E o autônomo riu, repartiu com os colegas da mesa frases irônicas, gritos de felicidade e gestos de ganhador. Pouco se importou quando alguém disse que, pelo erro, o funcionário que trabalhava no caixa daquela loja ficaria pelo menos um mês sem salário.

Um dia alguns homens foram mandados embora do Brasil por serem contra o regime político que predominava. Tiveram que ir para evitar a prisão, pois trabalhavam a consciência dos brasileiros e tudo que levasse à reflexão das pessoas era crime. Então surgiram os oportunistas e estes foram se juntar aos exilados, sem que ninguém os mandasse para fora. Alguns deles, depois, usaram dessa mentira e se tornaram políticos. Um deles virou presidente do Brasil.

Um dia um homem mentiu, destruiu, pisoteou, subtraiu. Como tantos outros homens costumam fazer sem que o peso da consciência dobrem as suas vértebras. Fizeram e desfizeram, sem medir consequencias e nem cogitar piedade.

Roubaram empregos, desalojaram famílias de suas moradias, levaram a certeza que as pessoas de bem teimam em acreditar, de que a solidariedade, a compaixão, a fraternidade, a ética, o comprometimento e a honestidade ainda forram o chão do bom caminho.

Sorrateiros, os homens despidos espreitam, a espera de momentos de fraqueza. Como diz o poeta Hans Magnus Enzensberger: Meu inimigo / Debruçado sobre o balcão / Na cama em cima do armário / No chão por toda parte / Agachado / Olhos fixos em mim / Meu irmão.

Apreciem abaixo Hotel Fraternité, na voz de Arnaldo Antunes. É um poema de Hans Magnus Enzensberger, traduzido por Aldo Fortes e musicado pelo Antunes. A obra pode ser conferida no CD Qualquer. A letra tem muito a ver com o artigo de hoje: o inimigo que espreita para ver suas falhas e suas virtudes, que de repente é seu amigo, torcendo pelo seu fracasso, e assim por diante. Algo como a frágil sustentabilidade de ser decente no mundo dos negócios e das relações de trabalho. Extrai o vídeo do Youtube.

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