sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Lá tem panelaço, aqui temos A Fazenda e o BBB


Aqui temos uma presidente. Lá na Argentina quem manda é Cristina Fernández de Kirchner. A análise política seria em torno de competências e capacidades das duas. Mas se permitiria numa conversa de fim de jornada de trabalho, no balcão de um bar: a Kirchner é bonitona; a Dilma...
América! Nosso pedaço! Temos o Chile, onde o presidente é Sebastián Piñera. A semana lá foi de panelaço. À frente as entidades estudantis que foram às ruas fazer barulho. Mas em cada janela dos apartamentos e das casas uma dona de casa, um pai de família ou um outro cidadão chileno ajudaram a aumentar o som. Sim, cidadania.
Alumínio no pau, pau no alumínio. Panelaços também ocorrem na Argentina. Costumam mobilizar multidões e ganham força com adesões de pessoas conscientes que decidem participar mesmo que não sejam vítimas diretas do mal que gerou o barulho. Nestes países as pessoas não saem de fino justificando que “o problema não é meu”. Todo e qualquer problema que afeta algum segmento da sociedade é encarado como calo que pode doer no pé de outros que hoje estão livres deste incomodo. As lutas são coletivas. Não se faz panelaço só quando sobe o preço do pãozinho. No Chile o panelaço foi o custo do ensino.
Argentina, Brasil e Chile, assim como a Venezuela, experimentaram no passado sabores amargos no modelo político. Quem mais sofreu, por exemplo, com a ditadura militar? Quem mais extraiu lições desses períodos de calabouços e cala a boca? O argentino? O brasileiro? O chileno?
A história é cruel quando a construímos com descaso, isto não pode ser ignorado. A nossa começa naquele 22 de abril de 1500, quando uma frota portuguesa comandada por Pedro Álvares Cabral chegou à terras habitadas pelos índios e delas se apossou. Terra de ninguém, deve ter gritado Cabral. E assim se fez.
Há análises sociológicas que tentam explicar a causa do nosso desinteresse em questões que nos afogam diretamente. Entrevistei há anos o professor Zancanaro, da filosofia da UEL, sobre estudo relacionado ao assunto. Não só ele, mas alguns outros autores buscam explicações lá no descobrimento, onde pontuam que as naus portuguesas traziam entre seus tripulantes pessoas com desacertos, inclusive com pendências jurídicas. Em alguns casos, integrar a frota era uma condição para sair da cadeia.
Isso seria uma influência, quase raiz cultural. Por isso hoje ouvimos com tanto desdém as notícias sobre políticos acusados de corrupção? Aliás, políticos que nós elegemos. Fizemos o cara vereador e ele não se contentou. Quis ser prefeito e nós respaldamos. Ele quis mais e mais e mais. Deputado estadual, deputado federal, secretário de alguma coisa, senador, presidente e, se possível, cadeira de não sei o que na ONU. Desculpem, a referência não é do Lula. É de todos os Lulas, Dilmas, FHCs, Sarneys e tendências coloridas que ora desbotam, ora ganham brilho por que nós, o povo, os elegemos.
Bem, lá tem panelaço. Mas aqui temos A Fazenda e o BBB. Temos Mano Menezes. Temos a Globo tentando ressuscitar o Zagallo. Temos Faustão aos domingos. Temos ICQ dono da verdade. Temos tantas bobagens... Para que fazer barulhaço só porque a educação é cara, o arroz sobe todo dia no mercado, a carne tem preço intragável e até o leite dói no bolso? Oras, o leite está caro porque fez frio. Ou porque fez estiagem. Talvez tenha chovido demais.
E assim caminha até a proxima Copa do Mundo. Tudo por culpa do Cabral. E nós ficamos parados. “...Esperando, esperando, esperando, esperando o sol / Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem / Esperando um filho pra esperar também / Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte / Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além... (Pedro Pedreiro, de Chico Buarque)”

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