quinta-feira, 3 de junho de 2010

Crônica - Cheiro de manga rosa



Uma velha bicicleta era a condução daquele homem. Mais do que isso. Com a Monark vermelha e branca, ele ganhava a vida. Carregava amarrada na bagageira uma caixa de madeira, onde colocava pacotes de amendoim salgado, paçoca, doce de leite e pipoca que eram distribuídos nos pequenos bares dos bairros próximos de onde morava.

Trabalhava antes com uma Caloi preta própria para carga. O bagageiro ficava na frente, visível aos olhos do condutor que suava em subidas intermináveis, levando no pedal e nas forças das pernas um veículo pesado e lento.

Ah, se ele tivesse uma Lanbretta. Até eu aproveitaria os momentos de folga daquele homem para fazer de conta que eu podia sair motorizado, sentido o cheiro de combustível queimado e ouvindo o estouro suave da combustão, parecendo uma panela de pipoca.

O homem deixaria a sua Lanbretta na sombra de um dos três pés de manga rosa do quintal, perto de onde descia uma corda. Na ponta, uma balaústra amarrada. Eu ficava de pé sobre a madeira e balançava.

Com os olhos fechados eu sonhava. O sonho meu era o mesmo do homem da bicicleta: uma condução para ele trabalhar e para eu brincar nas folgas dele, fazendo de conta.

Um dia ele se foi. Morreu sem ter o sonho de um carro trasnformado em verdade. E me deixou sem eu ter para quem sonhar na sombra da mangueira, no balanço de corda, sentindo o vento bater no rosto com um cheiro doce de manga rosa.

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