sábado, 10 de outubro de 2020

CRÔNICA – A criança que fugiu de nós

Eu a vejo, furtivo olhando atrás, com mais medo do que saudade. Temo encontrá-la decepcionada comigo, por tê-la deixado partir sem nenhuma despedida e muito menos compaixão.

Fui eu, na verdade, quem saiu dela, a minha criança baixinha, relativamente obesa, calção de elástico desbotado e chinelos de dedo encardidos. Foi ela que, por mim, brincou de bola de gude, queimou a cara soltando pipas, bateu bola no campo em frente de casa, desceu de carrinho de rolimã a rua de barro. E fez travessuras, atirando mamona com estilingue nos muros recentemente feitos e manchando a pintura.

Foi também ela, a criança que havia em mim, que subiu incontáveis vezes o pé de manga rosa. E lá em cima saboreou a fruta e com a cara lambuzada atirou o caroço no quintal da vizinha. E havia também o limão rosa, de cheiro forte e época dos mandorovás  grudados nos galhos mais altos. Vítimas, coitados, da travessura do menino que seguia sempre a criança que havia nele. E em vez de borboletas, a espécie era, uma por uma, derrubada no chão e queimada com a tocha de fogo na ponta de um cabo de vassoura de palha.

Não há como julgar ou ser julgado hoje, pois a criança que havia em mim fugiu, assim como as que compartilhavam a infância com os meninos e as meninas da vizinhança. Não há, porque a minha criança já não está em mim e eu, sem ela, tornei-me cético das coisas que aquela companheira me fazia acreditar.

Como a altura do escorregador da praça, sua escada apontada para o céu e, lá de cima, uma descida que levava a barriga para as costas e a imaginação para o profundo lugar dos sonhos.

E outros brinquedos, tão precários em quantidade naqueles tempos, mas disponíveis quando a vontade de rodar, balançar, escorregar, subir ou descer mandava.

A criança que havia em mim brincou nas ruas de pega-pega, esconde-esconde, amarelinha, bola queimada, roda pião, mãe da rua e coisas inventadas na hora, para passar o tempo juntos aos colegas.

A criança que havia em mim demorou para saber o que se podia assistir na televisão, pois não havia alguma delas em casa. A criança que havia em mim nem imagina que um dia a meninada do futuro teria que brincar com amigos atarefados, com os dedos em seus celulares.

A criança que havia em mim era tão ingênua que só conhecia as coisas do namoro quando os meninos trocavam os calções de elástico pelas calças compridas de brim. E as meninas precisavam, antes de sonhar com beijos, merecer exaustivas recomendações das mães para se precaverem dos perigos do amor.

No tempo da minha criança os dias, semanas, meses e anos eram contados em dobro. E a despedida dela era sem tristeza. Ela se ia, como se fosse coisa da vida. E eu assim aceitei a sua ida, porque era o que devia ser.

Mas que vontade tê-la de volta, esta minha criança que eu preciso tanto agora, após imaginar que o passado fosse algo numa caixa de papelão para ser guardado por um tempo e depois decartado.

Minha caixa do passado, minhas coisas que já foram descartadas, minha adolescência, a juventude, o homem maduro e, agora, na velhice, a vontade de buscar em tudo o que joguei a minha criança que eu deixei ir.

 







segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Crônica - Sobre o medo, sob o medo...

... é assim, cabisbaixo,como se houvesse receio ou vergonha, esgueirando-se de quem vem de encontro, sofrendo desvio dos outros. Sob o céu e além do sol, o medo de erguer os olhos e se dar com o oponente, mas quem é ele, como se apresenta, xinga, arranha, chuta ou mata? E, nas esquinas, dobram as dúvidas sobre o que há de vir detrás do muro encardido, ou do capim seco e alto o bastante para esconder surpresas perigosas. E o medo, vontade de passar e ficar, vergonha de ter que voltar.

Não pise na grama seca. Faça o contorno pelo asfalto. Os carros passam, a vida também passa. O que vale mais? A grama seca na calçada, o carro correndo no asfalto ou quem desafia e se arrisca, andando em cima do medo e ao mesmo tempo coberto por ele?

Talvez alguém em busca de mais, na aventura, para olhar e, se der, tocar, pegar, usufruir, ter um pouquinho, este enfrente. Uma criança, uma mulher, um homem, um adolescente, um idoso, uma senhora com sede de enxergar além das esquinas, na linha do horizonte, no céu, nas copas das árvores.

E eis uma delas, flores lilases roubando a beleza das folhas verdes. E outra ali, com enfeites amarelos. E mesmo aquelas que negam flores agora exibem enfeites como se usassem bijuterias. São arranjos feitos pelos homens para deixar marcas de bem querer na natureza. Na verdade, penduricalhos artesanais e criativos de alguma pessoa que emprestou sua arte para a frondosa árvore.

Há outros lugares para serem vistos, mensagens para serem entendidas. Um agasalho pendurado na cerca de tela de arame diz que o inverno se foi. Outro, no pé da árvore, mostra o descaso de quem o abandonou sem fazer da precaução uma coberta protetora.

Na entrada do cemitério pessoas dão o seu adeus a quem se foi. Um amigo importante, um familiar querido, um colega de trabalho ou uma conveniência só porque alguém se foi?

É a vida! Ou a morte? Tanto uma quanto a outra à espreita, na próxima esquina, em mais um casaco abandonado na cerca, na copa de uma árvore ou sob ela, na calçada tomada pelo mato seco, nas idas e vindas de quem quer viver e sai por ai caminhando, olhando para o chão, com se tivesse medo de andar, mas com vergonha de ficar parado.


As blusas, em tempo de muito calor, penduradas na cerca de tela da praça e aos pés de uma árvore: momentaneamente inúteis

Flores lilases e flores amarelas disputam com as folhas verdes a estação do ano, Primavera de sol forte e sem chuva


A calçada é interrompida pelo capim seco, junto com lixo; o pedestre tem que vencê-la caminhando sobre o asfalto
No outro lado da mesma rua, o capim ultrapassa a cerca de tela de um terreno público com prédio desativado; sensação estranha ao passar pelo local
A dor da perda de amigos e familiares durante um velório
Não são frutas, são adornos feitos artesanalmente e pendurados à árvore em uma pracinha




sexta-feira, 2 de outubro de 2020

OPINIÃO – A pandemia do ódio

 

Já nos primeiros dias após a chegada dos casos pioneiros de Covid-19 no Brasil, pode-se prever que aqui a pandemia do novo coronavirus atingiria proporções além, e muito, de uma batalha da saúde pública nacional para garantir a vida das pessoas.

Muitos sintomas levavam a este diagnóstico sombrio, de uma briga que deveria ser contra o inimigo poderoso e invisível ter a sua linha de frente apontada para os brasileiros.

A arma não era a defensiva munição do bom senso, sob o comando do Ministério da Saúde e a participação necessária dos estudiosos desta área, que este País tem o privilégio de ter de sobra. Letal, usou-se a política como ferramenta de ataque e, ao mesmo tempo, escudo. E foi esta a aberração a ser encenada nos palcos cedidos pelos meios de comunicação. Alguns deles com a pretensão de denunciar o que acontecia, mas equivocadamente cedendo espaço e pontos na mídia aos falsos atores. Outros coniventes, como sempre houve situações parecidas na imprensa brasileira, da qual fiz parte por 37 dos 46 anos de vida profissional.

Neste enredo hilárico sobre o bem contra o mal, tal qual novela, o preço da mentira, do descaso com o problema vigente, e a falta de respeito para com os brasileiros foram descarados. Aliás, hilárico é força de expressão equivocada. Na verdade foi um enredo que levou ao extremo do que é ruim.

E ficamos nós, cidadãos, petrificados e inertes diante das páginas dos jornais, do noticiário da TV e do rádio, dos comentários dos especialistas dimensionando o problema e seus riscos. Tão igual fomos quando o lado político, pelo contrário, minimizava. E ficamos, como se esperando o fim do jogo, não acreditando em um lado e desacreditando no outro. O faz de conta até nos deu máscaras para serem usadas, cobrindo o nariz e a boca. Máscaras que os diferentes decidiram não usar apenas para serem desrespeitosos.

Então falar da pandemia, neste País, exige falar de política. Misturaram as duas coisas a tal ponto que é, agora, difícil dissociar uma da outra. E temos uma Constituição da República. Ela diz que aqui vigora a democracia. Tão mencionada e defendida, ela, a democracia, devia ser algo compreendido.

De um jeito muito simplista e sem teorias mais aprofundadas poderíamos dizer que ela permite que a gente, pelo voto, escolha o Presidente da República, seu vice, os membros do Senado, da Câmara dos Deputados, dos governos estaduais e municipais, das Assembléias Legislativas, das Câmaras de Vereadores. É, de fato, simplista e vergonhoso definir a Democracia assim. Mas é o que se permite nesta ocasião.

Depois a Constituição permite as nomeações feitas pelos que foram escolhidos pelo voto: ministros, diretores afins, secretários estaduais e municipais e até na Justiça, nas mais diferentes Cortes com membros indicados e, em alguns casos, sabatinados.

Simples assim. A democracia concede ao povo a oportunidade de ter mantido um regime político mais aproximado com as aspirações dele. Sim, o povo. Sejam os eleitos de direita, de esquerda, de centro, estes terão que governar e legislar de acordo com o que manda a Constituição. Se isso não ocorre e nos calamos, estamos abrindo mão do direito de alertar o empossado sobre o erro que ele está cometendo.

É assim mesmo? É. E se deixamos como está aquilo que está errado, achando que já fizemos a nossa parte votando, então, realmente, não aprendemos sobre democracia. E se erramos na escolha porque o produto oferecido parecia autêntico, mas era uma cópia que só funcionava por fora, erramos, mas só um pouquinho pelo fato de sermos descuidados na escolha. Mas quando assumimos as mentiras veiculadas pelas redes sociais e ficamos cegos e surdos, então falhamos conosco mesmo.

Faz quase um ano. Se antes a pandemia nos deixava atordoados, pois perdidos entre a mentira, a verdade, o sensacionalismo, a oportunização da doença para aumentar os ganhos políticos de uns e outros, tanto da esquerda, quanto da direita e quanto do centro, como também para eleger potenciais postulantes a cargos públicos nas próximas eleições, agora estamos caídos, quase de desesperança.

Porque o problema não é só a pandemia. Aliás, não foi ela que criou o preconceito, a discriminação, o desemprego, a desconfiança nos outros, a dúvida quanto ao o que será amanhã.

“Use gel”, “Use máscara”, “Mantenha distância”, “Criança de até 12 anos não entra” e, nas entrelinhas, “velho tem que ficar em casa”, “gordo é prato cheio para ficar doente”. Um País de avisos e de provocações levemente reprimidas. Um País que dividiu a sua população entre quem vota naquele ou no outro, quem pode sair para as baladas e quem não deve nem sair para uma caminhada, quem é grupo de risco e quem está liberado para, inclusive, abusar da sua e da saúde dos outros.

Avisos, máscaras, gel, incompreensão, ruindade, filas nos bancos por causa dos auxílios, desemprego, fome e lágrimas. E quem, sem emprego, no meio de outros que por comodismo dormem nos becos.

Como aquele, no centro de Londrina, um barracão de alvenaria abandonado onde a porta, feita com trapos, é a chance de alguns terem onde dormir. Mas, para todos nós, deve ser o ícone para a reflexão sobre onde e como estamos indo. E ponderar, de verdade, que a pandemia do Covid-19 não é a principal culpada de tudo isso.

A outra, a pandemia do ódio, é a que nos dilacera.








quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Crônica - Os cães, segundo o cotidiano

Um cão de apartamento é um bichinho tinhoso e domina quem trata dele, fazendo-o um serviçal. Sente-se dono absoluto do lugar, late para fazer pirraça, faz sujeira onde lhe convier para chamar a atenção. Incomoda vizinhos, deixa o síndico careca de tanta reclamações, ou a síndica, se for ela, com insônia pelo mesmo motivo. Corre de um lado a outro sobre o piso laminado, sabendo que o barulho das unhas no chão tiram o sossego da mulher do andar de baixo, que trabalhou mais de 30 anos e acabou de se aposentar.

Um cão de casa com quintal é a autoridade do lugar. Rosna quando é exigido a isso, late para quem passa em frente para avisar que ali não é terra sem lei. Acata quem cuida dele, mas com jeito de pouco caso. E corre atrás dos gatos invasores do território alheio. Por isso são quase cães.

Um cão de rua, este sim é supremo e seguro. Não conhece a lei do trânsito, mas sabe quando desviar de um carro em movimento. Conhece os truques sobre quem dele se aproxima. Primeiro pára com certa distância, olha a pessoa que está diante com olhar enigmático, e não se sabe o que é: parece que está rindo, ou que está implorando um afago. Se a pessoa corresponde ele chega mais perto, porém ainda evita cheirá-la. Antes disso testa com reações: senta e deita com as as patinhas jogadas para a frente, língua de fora; coça com as patas traseiras atrás das orelhas; se estica todo, espreguiçando. Se agradou, parte para o fucinhamento, se é que está palavra existe no nosso português. Primeiro nos pés e depois nas pernas, oferecendo achego para receber de volta.

Conheci um cão de rua de belo porte, grande, pelagem marrom, bem clara, orelhas longas, duras e sempre esticadas. Andava pelas proximidades da Avenida Maringá, perto da Rua Ibiporã, aqui em Londrina, e fazia percursos diários pela mesma rota e mesmo horário. Atravessava as duas pistas da Maringá, descia a Ibiporã e chegava ao sobrado onde o morador reservava todos os dias água e comida, no quintal. 

Após satisfeito o cão retornava para a rua e ia ao ponto de ônibus em frente, ver se ali havia alguém. Conhecida ou não a pessoa, ele chegava de mansinho, coçava-se no poste do ponto, e olhava quem estava ali. Se houvesse correspondência, oferecia a cabeça para um carinho. Caso contrário, olhava a pessoa com expressão de feliz e seguia, de retorno ao seu destino.

Um dia cheguei pouco antes no ponto de ônibus e conferi como ele fazia para atravessar as duas pistas da movimentada Avenida Maringá. O cão chegou e parou no semáforo, até que veio uma senhora e se postou ao lado dele, distraída. Quando os sinal abriu a mulher iniciou a travessia, com o cão ao seu lado, aproveitando a carona para atravessar.

Obs.: Isto é uma crônica, com base em observações do cotidiano. Não é e nunca se pretendeu uma abordagem científica. Portanto, não exijam referencias.




sábado, 26 de setembro de 2020

A rua fala e tem história pra contar

 A rua onde Patrícia e Adilson moram tem coisas pequenas e grandes que fazem dela um lugar especial. Cachorros presos nos quintais fazem o seu trabalho de noite e de dia, com latidos agudos e teimosos. Nem assim a rua de Patrícia e Adilson perde a característica de espaço público onde o sossego provoca sensação de paz. Patrícia é formada em matemática e é também engenheira elétrica. Adilson é formado em administração de empresas, mas trabalha atualmente como fotógrafo. O casal ainda não tem filhos. Na frente da casa onde moram há uma placa fincada no outro lado da rua, onde devia ser calçada. Mas o enorme terreno cercado que ocupa um quarteirão não dispõe de tal benfeitoria, pois inexiste qualquer obra no lado de dentro. A placa é um bom aviso aos que passam: “Plante, Cuide e Colherá!” O recado é de Patrícia. Ela nasceu em Cândido Mota, no Estado de São Paulo. A família veio de mudança para Londrina quando Patrícia estava com seis anos de idade. O local escolhido para moradia foi a região do Antares, à margem de uma extensa via que corta parte da cidade do centro ao leste, a Avenida São João. Anos depois, já casada com Adilson, Patrícia continuou no bairro, que apesar de ser conhecido como Antares tem um nome específico, Jardim Tatiane. São, enfim, 25 anos naquela região. E o recado de Patrícia, fincado no outro lado da rua, tem a ver com o que ela faz ali: um pequeno canteiro com hortaliças e girassóis, planta que enfeita com suas flores enormes e alimenta com suas sementes as maritacas que sobrevoam a região. A idéia, conforme revela, era ter alimento para espécie de ave doméstica mantida no quintal. Mas as maritacas, sem cerimônia, se apoderaram do plantio. Em retribuição, as maritacas enfeitam aquela horta quando as sementes estão prontas para serem bicadas por elas. O nome da rua é Alice Sumiko Okajima. É cortada em sua trajetória por uma avenida, a São João, as ruas Anaí, Indaiá, Cunhatai, Diacui, Jurema e, na ponta, a Bartirá, com duas pistas. Em uma das margens, acima da Avenida São João, há uma enorme praça pública, com área arborizada, equipamentos de parque infantil e ginástica ao ar livre, e extensão gramada. Pouco adianta, em outra margem, o muro lateral de um enorme estabelecimento de ensino, o Colégio Estadual Professor João Rodrigues da Silva, de ensino fundamental e médio e também o EJA (Educação de Jovens e Adultos).


O canteiro começou a ser formado por Patrícia há um ano e a dedicação da moradora passou por provações, como a de pessoas que jogavam material descartável onde ela preparava a terra para iniciar o plantio



O muro do Colégio Professor João Rodrigo da Silva estampa um trabalho artístico que chama a atenção



A praça, enorme, com arborização, gramado bem cuidado e equipamentos de parque infantil e ginástica ao ar livre

Jardim, horta, girassóis e maritacas

Adilson Koizumi, marido de Patrícia, é fotógrafo - "setor de criação" - e acompanhou todo o trabalho da esposa na implantação e nos cuidados com o jardim e a horta em frente da casa onde moram, na Rua Alice Sumiko Okajima. Ele emprestou ao blog algumas fotos de sua autoria, para que fossem postadas junto à reportagem que conta a história do casal.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

CRÔNICA - Pouca água

A chuva da manhã de 21 de setembro foi um breve ensaio. Diante de um Paraná acuado pelo baixo nível dos reservatórios de água, principalmente no Litoral e na Região Metropolitana de Curitiba, a estiagem que já dura um ano faz a população do Estado engolir seco. Em Londrina a precipitação de setembro anunciou a chegada da Primavera no dia seguinte, a terça-feira, 22. Minutos antes das oito da manhã, quando a maioria dos trabalhadores, vencendo o isolamento da pandemia do novo coronavírus, iam trabalhar, alguns pingos assanharam ainda mais porque o sol não havia nem despertado. Em instantes e compassadamente o volume de água caindo do céu ganhou volume. Engrossou, como faz tempo não se via. Fez até barulho de enxurrada descendo no rebaixado entre o fim do asfalto e o meio fio. Em pouco tempo havia poças de água formadas em alguns pontos. Na rua, nas calçadas, nos quintais cobertos de cimento. E durou tão pouco... Menos de uma hora e a torneira fechou. O sol ainda esperou mais algum tempo antes de se manifestar com vigor. Um friozinho incomodou até os mais calorentos. Era o último dia do verão de dois mil e vinte. Primavera de vento forte, conforme a previsão havia avisado. Mas o calor disputou seu espaço e frustou quem apostou no uso de agasalhos. Nos lares, até cobertas mais pesadas já haviam sido guardadas. A chuva da véspera da Primavera trouxe, ainda assim, um alívio. Lavou a poeira e, se não foi suficiente para pintar as folhas das árvores de verde, deu a elas uma cor de lavadas pela natureza. As previsões não animam: chuva boa, talvez, só em fevereiro do ano que vem. As fotos são de antes, quando a precipitação era esperada. A vegetação, sedenta, sofria. Mas resistia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Crônica - Chuva...

Chegou sem fazer alarde, disfarçando o peso da ausência prolongada ao ceder à estiagem a prevalência da seca e da poeira. Pingou ralinho aqui e ali, borrando levemente os vidros das janelas das casas com o marrom da sujeira. Ainda assim causou alegria. Há tanto tempo, afinal, ela não vinha. Logo parou, desafiadora, como se avisando: ``Paro se me convier...`` Refém do tempo, a mulher contou as peças de roupas a serem lavadas. E eram muitas. Mas ponderou, falando consigo mesma: ``Acumula para amanhã ou depois, mas a chuva é bem vinda. Que venha e fique por bom tempo``. Lá embaixo, onde a água é cara e por isso não chega nas torneiras, o homem de idade avançada aproveitou os latões de tintas feitos baldes e os enfileirou sob as goteiras formadas pelas dobras do plástico negro que cobria parte da varanda do puxadinho usado como moradia. Água para beber, lavar, banhar, cozinhar, viver. Já nessa hora a chuva descia grossa, persistente, fazendo quase um frio na manhã de uma primavera que havia começado justo naquele dia, muito quente. O menino, preso numa quarentena que ele compreendia de longe, mais por causa da máscara que é obrigado a usar do que por conhecimento da causa, se imaginou brincando de escorrega na enxurrada da rua sem asfalto que desce para um matagal. Lá em cima, na parte mais nobre do bairro, houve um garoto que pousou o smartphone na mesa e espiou a molhaceira lá fora. Um dia, ainda mais novo, o pai havia ensinado a fazer um barco de papel. Mas esqueceu como era e recorreu ao telefone, inseparável, onde pesquisou sobre veleiros de verdade levados pelas correntes de ar. O síndico do condomínio luxuoso fincado verticalmente num bairro de luxo dispensou as faxineiras da tarefa de uma empurrar o esguicho elétrico e outra varrer a sujeira com a água. Por algum tempo, enquanto a chuva caiu, os aparelhos de ar condicionado se calaram de seu barulho enjoativo e economizaram energia. O esguichou poupou o tão esperado líquido, pois a água caiu do céu. Na periferia, o homem, já aposentado, reclamou que não poderia queimar no quintal as folhas secas que caíram das árvores no fim de semana. E não se fez, por sorte dos vizinhos, fumaça e poluição durante a chuva. Parecia que a terra ressurgia enquanto a chuva, ainda que tímida, pintava as copas das árvores de verde.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Falando Bem ou Mal - Meu condomínio é um canteiro de obras

Aqui a pandemia nunca começou. Aconteceu que, na calda das verdades e das inverdades de uma minúscula espécie assassina, meus vizinhos de classe média pararam, seguindo modelo de outros povos de perto ou distantes, e se obrigaram a ficar em casa para evitar o desconforto de sair com máscaras. Regras visíveis aos de longe respeitadas. Determinações próximas desconsideradas. "Não pode fazer obra no condomínio? Quem inventou isso?" E chegaram caminhões com cimento, areia, pisos, latas de tinta. Muitos. Com eles os carregadores, alguns jovens, outros na fase do "típico fulano com comorbidade". O piso transportado por eles nem sempre respeitou os decretos de isolamento. E as máscaras, com a força e a respiração ofegante, caiam nos queixos. Crianças subiam e desciam brincando nos elevadores. As escadas viraram esconderijos para brincadeiras de corre-corre. E o barulho irritante das marretas quebrando concreto? Serra elétrica, parafusador recarregável, furadeiras e outros apetrechos barulhentos subiam e desciam, como se a ordem fosse "fazer barulho" para espantar os bichinhos. No outro lado da rua, não uma, mas tantas vezes, o aparador da minúscula área gramada do condomínio trouxe sua equipe para competir. Dois homens com cortadores, um elétrico e outro de combustível, além de um terceiro com o assoprador atormentante, gastaram um dia inteiro para fazer o que um jardineiro com ferramentas tradicionais faria em metade do tempo, sozinho. E foram embora ainda com a luz do sol, máscaras cobrindo os queixos, deixando no meio da rua e nas calçadas dos vizinhos o resto que o assoprador não escondeu embaixo dos carros. Festa não teve, isso pode ser garantido. Mas uns e outros ajuntaram visitas nas sacadas e consumiram cervejas. Deu para perceber quando as mulheres começaram a falar mais do que a potência de suas vozes, gritando para serem ouvidas, e os homens, hiláricos e hilariantes, riam de qualquer coisa sem graça. Se um inseto passava e raspava na cabeça de um, aquilo era motivo de gargalhada. Coisa de louco. Será?

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Crônica - Infância

(atualização de conto já publicado na série Maracujá Doce)



Walter Ogama 

Havia um pé de limão rosa no fundo do quintal, à direita de uma pequena área gramada e pouco antes da cerca improvisada com madeiras que restaram da construção da casa.
Imperfeitas, as tábuas formavam uma fila de pouca estética. Alguns vãos entre elas davam apenas para as mãos. Outras mantinham espaços suficientes para enfiar o braço e alcançar a horta do quintal vizinho, onde as cebolinhas verdes assanhavam perto do horário das refeições.
                Um abacateiro enorme dava sombra bem onde uma viga fincada no chão de terra mole fazia o ponto de partida para os seis arames do varal. Às vezes, após as chuvas, uma estaca feita de um galho de árvore servia de escora.
Envergada pelo peso, ela suportava a viga inclinada para o lado onde os arames, abarrotados de roupas molhadas, sofriam pressão. Calças de brim, camisas de algodão, cobertas, lençóis, meias e peças íntimas masculinas e femininas, de cores sóbrias ou vivas, pareciam bandeirolas disformes.
A cana-de-açúcar, de gomos avermelhados e folhas verdes bem fortes, desenhava um redondo pouco abaixo do pé de manga rosa. A touceira ocupava perto de um metro quadrado do terreno e perto dali um pedaço de tronco de árvore, serrado ao meio, era usado como batedor de roupa.
Com um metro e meio de comprimento e cinquenta centímetros de largura, tinha uma ponta apoiada no chão e a outra, sustentada por duas estacas, a uma altura de cerca de oitenta centímetros do chão. No pé, tijolos e telhas amassados faziam um piso, para evitar que as sandálias de tiras pisassem no barro.
Mais à esquerda, um galho grosso do pé de manga descia uma corda. Na ponta, a tábua extraída de um caixote era o assento. Por um buraco grotescamente furado a corda atravessava a madeira. O nó duplo era uma tentativa de manter a peça, responsável pelo conforto de quem se divertia, balançando.
O jardim misturava espécies e perfumes. Tomava parte da frente do quintal e em alguns pontos disfarçava a irregularidade da cerca. Plantas mais altas e de folhagem mais densa tinham muitas finalidades.
À noite, ou sustentavam personagens durante o esconde-esconde, ou ocultavam pregadores de peças que assustavam as meninas que passavam pelo portão após a missa na capela da rua de cima.
O cachorro preto e branco ficava solto. Por mais que pudesse ganhar a rua e as casas da vizinhança através dos vãos entre as tábuas da cerca, o animal limitava-se à área protegida. Por algumas vezes Bilú correu muito para escapar dos laços dos homens da "carrocinha".
Entre os meninos, a lenda era de que cachorro pego virava sabão. Havia muita choradeira entre os pequenos quando um bicho de estimação era levado pela carrocinha.
Nem as galinhas caipiras, ciscando à vontade perto do valo aberto pela corredeira da água do batedor de roupa, incomodavam o cão. Essas aves teriam no final do ano um destino traiçoeiro: a panela ou o forno. Por isso, até a engorda, tinham privilégio no canto do quintal onde eram jogados os restos de comida para alimentar a criação.
No caminho que levava ao poço, onde a água era puxada várias vezes por dia num balde, o maracujá doce pouco se importava com as outras plantas. Vigoroso, subia por um balaústre, invadia o tronco do abacateiro, estendia suas ramas até a viga que suportava os varais e aproveitava um dos arames para atravessar o terreno até os fundos.
Seus frutos eram saborosos. Os adultos usavam colheres de sobremesa para prová-los, mas os meninos preferiam as mãos para rachar a casca dura, beber o caldo pelas frestas e depois enfiar os dedos para apanhar as sementes cobertas pelas polpas adocicadas.
Foi ali, naquele pequeno terreno onde a casa de madeira velha e sem pintura escondia móveis precários e crianças desdentadas, onde nasceu o menino. Cabelos espevitados, olhos esbugalhados, bochechas da cara sujas e avermelhadas, nariz escorrendo, e pés no chão, ele corria o mundo usando como limite os quatro cantos do quintal de um bairro de Londrina, no Norte do Paraná.
A vida de sonhos e fantasias tinha um tempo certo: acordar, tomar café torrado e moído na hora com leite in natura, correr, andar de costas, assobiar, subir em árvores, construir castelos, destruir a base do inimigo, pilotar uma moto feita com cabo de vassoura, enfiar o pé na lama, limpar a perna suja de poeira, correr de novo, andar de costas outra vez, descer da árvore, arrebentar o arame do varal, esconder, aparecer, enxugar o suor do rosto com o lençol posto para secar, levar bronca, xingar, fazer desaforos, retrucar com birras, tomar banho, jantar, zombar com os irmãos, dormir e acordar.
Tudo era fácil, apesar da agenda tão lotada.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

HISTÓRIA – Canteiro de obras, escola da vida

Um canteiro de obras é uma escola que ensina: basta aprender o básico para sermos, sempre, serventes em tudo



Osvaldo S. Martins

                O dia mal amanhecera e a roupa de guerra já estava no corpo. Ou melhor, roupa de viagem,
pois a de labuta ficava no canteiro de obras.
                A viagem, diariamente, vencia um percurso razoável de casa até a futura algodoeira. Uma baldeação era necessária para chegar ao destino de todos os dias.
                O velho caldeirão de alumínio, com o almoço carinhosamente preparado todas as madrugadas, fazia de minha mãe uma exímia cozinheira. A tampa precisava ser entrelaçada com um reforçado barbante, para garantir a conservação do tão saboroso almoço.
                Na mochila ia junto a garrafinha de café ou chá, que ficava reservada para a segunda alimentação do dia, que era o café da tarde.
                A viagem era sempre uma aventura, pois além dos costumeiros passageiros que embarcavam para os mais diversos destinos, íamos nós, com outros pedreiros, carpinteiros e serventes. Todo o caminho era de muita conversa sobre os acontecimentos do cotidiano, mesmo quando os assuntos careciam de novidades.
                A lembrança de casa ia aos poucos ficando para trás, pois a correria e a interação com os colegas de trabalho levava nossos pensamentos para o que estaria por vir no canteiro de obras.
                Mas sabíamos que, embora a tarefa a ser cumprida no dia fosse de sol a sol, tudo o que fazíamos era com amor. E o tempo passava sem que percebêssemos.
                Os dias transcorriam árduos sim, E cansativos ao extremo, de segunda a sábado, sem nem considerar as datas marcadas de vermelho no calendário. Pois a jornada não previa feriados.
                Às vezes caia uma chuva leve e insistente. No inverno o frio castigava muito. Mas todos os trabalhadores se sentiam peças importantes. Entre tantos profissionais habilidosos e esforçados, cada um desempenhava a sua tarefa.
                E dava-se um sumiço no cansaço quando, após o almoço, da prosa com os mais velhos vinham histórias de um tempo em que ainda eu nem era nascido.
                Falavam de imigrantes, da derrubada de matas, de vida em um mundo onde tudo era difícil. De novas cidades nascendo e até de guerra, pois um ou outro daqueles que tinham mais idade estivera lá um dia, num campo de batalha de verdade.
                Meu pai administrava a obra. Ele dava duro como qualquer outro e, às vezes, até mais. Era o exemplo da sabedoria, arrastando seus subordinados.
                Eu, que desempenhava a humilde função de servente, fui incumbido de ser o “guarda livros”. Deixei a enxada, a carriola e a picareta de lado por uns momentos e abracei a caneta.
                Naquela função eu fazia o controle das horas trabalhadas e calculava o valor a ser pago a cada um, para providenciar o respectivo recibo de quitação. Sempre com a precaução de rezar na folha do recibo em branco o termo “quitação plena, geral e irrestrita”, para que não houvesse reclamação posterior.
                Assim era feita a folha de pagamento, numa velha banca de montagem de estruturas de ferro. Não havia uma sala com escrivaninha. Todas as tarefas eram exercidas em um ambiente rústico.
                Repetia-se muito naquele tempo que o que era tratado não era caro. Pagava-se o combinado, sem trapaça.
                No enorme canteiro de obras, as paredes iam, aos poucos, avançando. Terminava semana, começava outra e mais outra, e o desenho esboçado no papel começava a tomar forma, sobre um chão duro de terra vermelha.
                A construção brotava de uma fundação que tão penosamente e de forma manual fora executada, para alicerçar com segurança a obra tão esperada. Hoje, o sacrifício manual se resume ao equipamento mecânico e hidráulico, o “bate estaca”, deixando no passado o pesado sentimento de resistência da terra, na perfuração manual dos alicerces.
                Assim o tempo corria e todos corriam contra o tempo, para que a imaginada algodoeira ganhasse a forma de enormes barracões.
                Ao lado, um enorme terreno começava a ser preparado para uma cultura até então desconhecida. Uma nova lavoura, jamais vista na região, que viria ocupar o lugar da velha cultura do café que as geadas haviam sacrificado.
                Tudo ao mesmo tempo, pois estávamos construindo uma máquina de beneficiar algodão e ao lado testemunhávamos o início do cultivo do algodão.
                Enquanto as paredes subiam, os pés de algodão cresciam e ganhavam altura para depois, como se estivesse acenando em sinal de paz, abrir seus frutos, conhecidos de maçãs, em um enorme tapete branco de visão única e maravilhosa.
                Com o avanço da edificação e a cultura em desenvolvimento, outra novidade podia ser vista: aquele velho e sábio senhor, que montava uma arcaica parafernália. Por curiosidade sabíamos que aquilo viria a ser usado para beneficiar o algodão plantado ao lado, separando sua fibra para produtos têxteis e farmacêuticos e a semente para óleo, rações e outras infinidades.
                Tudo era novidade para todos. Por isso os momentos naquela construção foram mágicos. Momentos de aprendizado e descoberta. De conhecer novas pessoas, novas culturas, novas engenharias mecânicas e preencher o tempo e o espaço como poucos puderam fazer.
                E a cada dia, ao encerrar a jornada, a rotina era a mesma. Roupa suja pendurada no quartinho de ferramentas do canteiro de obras e roupas de viagem vestidas por homens cansados.
                Já em casa, o banho rápido alivia o cansaço. A janta é feita às pressas. E outra batalha estava pronta para começar na escola, onde as aulas terminavam às onze da noite e a luta era para vencer o sono. Como estudar e aprender com um corpo cansado e a cabeça pedindo travesseiro para aliviar o peso do dia?
                Pois era assim que se aprendia na escola da vida, onde os canteiros de obras viravam salas de aula a céu aberto.
                Meu pai foi o professor do mais alto grau que um educador poderia ter. Sem a cultura didática, mas com a cultura aprofundada da prática que a tudo se sobrepõe.
                Não me deu diploma, mas transferiu conhecimento, caráter e sabedoria para enfrentar o mundo de cabeça erguida, com ensinamentos tão profundos de quem sabia apenas assinar o próprio nome.
                Foi um tempo de dar saudade. Dos canteiros de obras onde a vida me colocou, das pessoas com quem compartilhei as marmitas, dos profissionais e, sobretudo, do caráter que todos possuíam.
                Quantas lições, que aprendizado. E a vida, enfim, ensinando: não precisamos aprender tudo e sim, o básico, para sermos sempre serventes em tudo, mesmo que cheguemos a ser mestre, algum dia.


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Memória - Um dia de Finados

Artigo escrito por Osvaldo S. Martins, leitor e grande colaborar do administrador do blog, Walter Ogama, com pautas e inclusive apoio em pesquisas na produção de reportagens


Osvaldo S. Martins

                A vida acontece cotidianamente de um jeito tão coordenada que, às vezes, achamos que ela jamais chegará ao fim.
                Mas quando, despreocupados, nos acostumamos com essa possibilidade, eis que o inesperado nos bate à porta. Ou, pode se dizer, o esperado momento se faz presente e a vida é ceifada.
                Morte, passagem ou termos populares, como “bateu as botas” ou “ajuntou os pés”, são algumas das denominações dadas a esse episódio. Evidente, a humanidade e suas diferentes culturas tratam do breve, porém eterno momento da morte, com suas peculiaridades.
                A questão é que tudo o que projetamos quando criança, tudo o que alimentamos na adolescência e fizemos na juventude para alicerçar nossa vida, se acaba em um último suspiro.
                Talvez o derradeiro olhar ao redor seja ainda suficiente para entendermos que o bem material foi superficial à nossa vida. As poupanças que fizemos, por exemplo, em detrimento de conforto não relacionado ao monetário. Uma viagem, uma reunião de família, um livro por mês, um cinema por semana.
                Tanto deixamos para trás com medo de no futuro a vida nos fazer voltar a ser apenas pessoas, sem nada além da própria pele que nos cobre. Bens materiais, enfim, no eterno confronta com os valores humanos.
                Pois assim é vida, feita de variadas etapas e tempo distinto para cada um de nós. De um jeito simples podemos dizer que o destino de todos os mortais é o que acima chamamos de inesperado, embora pontual. Mais cedo para uns, mais tarde para outros.
                E é ali, no cemitério, que nos tornamos raízes do nada. Na quietude, onde o silêncio é a voz que mais se ouve e onde todos permanecem enfileirados, em uma única posição.
                No dia dedicado aos mortos nos embrenhamos a caminhar entre sepulturas. Voltamos ao tempo e imaginamos assistir um melancólico filme sobre o passado.
                Percebemos que a velha mania de criança, de observar os pequenos montes de terra, com uma cruz  fincada e ornamentada com uma coroa de flores de lata, tudo cercado de balaústres, é a lembrança física que resta de um ente que se foi.
                E se o cemitério ficou moderno, com construções em mármore ou granito no lugar onde antes só havia a terra e a cruz,  o mesmo não se diz da morte. Ela permaneceu como era na antiguidade e será assim no futuro, levando a cada instante uma vida. Vida de um segundo, um minuto, uma hora, dias, semanas, anos e vida de uma vida toda.
                Até as letras manualmente escritas nas cruzes de madeira deram lugar a elegantes placas de metal, com frases ou pensamentos cuidadosamente elaborados, ao lado de fotos coloridas. Um olhar e uma lembrança. Uma foto e uma história que ela resgata.
                O que nos mostra que o sentimento de quem fica também é imune à mudança. Ontem e hoje as mensagens gravadas nas lápides são de muita tristeza e saudade. Seria a dor da perda, como se a vida nessa fase derradeira ainda nos pertencesse e não fosse uma dádiva de Deus.
                O homem, talvez, demore a entender que estamos aqui emprestados e que nossos entes queridos são obras do criador, que os resgata quando estes concluem suas missões.

                A vida, enfim, vai e volta. A vida não passa, simplesmente. Dizia o poeta: “Quem passou pela vida em branca nuvem... (Francisco Otaviano)”